quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Chego lá...

 
 



Hoje acordei pensando neste Blog. Já há algum tempo não tenho tido vontade de escrever, inspiração eu tenho, mas algo me impede de colocar meus pensamentos e ideias aqui. Tenho alguns seguidores que me perguntam pelo Blog e eu sempre prometo voltar à carga. Vou chegar lá a qualquer momento, só não sei quando. Revi algumas postagens e acho engraçado tê-las escrito, não me identifico com elas, mas as escrevi. Sou eu e não sou eu: modernidades.










quinta-feira, 24 de abril de 2014

CONSCIÊNCIA CONSCIÊNCIA



Parede branca a minha frente,
Cale-se, não diga mais nada,
A ti nunca pedi opinião,
De ti nunca pude me esquivar.

Como podes ser tão fria?
Valente és em me encarar,
Não nego entretanto sua proeza,
De tudo dizer sem se expressar.

Quando te vejo silenciosa e atrevida,
Lembrando-me de algum feito meu,
Sinto a loucura rondando,
Como se a morte pedisse lugar.

Não mostre mais sua cara, te imploro,
De tudo sei como autora que fui,
Deixe-me por um instante, maldita,
Tu és um espelho que quero quebrar.

Se eu pudesse eleger livremente,
Algo para minha vida desgraçar,
Não seria uma parede tão branquinha,
Letal sem sequer se movimentar.

sábado, 15 de março de 2014

FICÇÃO REAL: TRISTE MUITO TRISTE






 O sol se põe todos os dias, mas volta a brilhar ao dia seguinte, é só uma questão de tempo. Essa foto eu tirei em Nazaré (Portugal).



Foi um encontro casual, não previsto, nem sonhado, que se tornou em uma história de amor. Do ponto de vista da moça foi um amor distinto de outros amores, para ela, um antigo amor eleito como o maior amor da vida, passou a ser apenas um fragmento na memória. Foram muitos anos em que aquele encontro se repetiu  quase diariamente, nada perto da eternidade, mas foram anos com mais, muito mais que 365 dias, dias intensos e consagrados como dias e noites sem regresso. Nada faria voltar às sensações de cada um deles, sempre algo inédito acontecia. Até um simples beijo era único. Beijos que os olhos cerram, e como pássaros enjaulados pelas pestanas aceitam placidamente a prisão. Maldita prisão.

O tempo transcorria sob os pés da moça, que a cada encontro se via tomada por tamanha ternura pelo rapaz, que sua alma precisou de uma suplementar para albergar aquele sentimento. Uma alma era para o mundo, a outra para ele. Ambas dentro de um só corpo, mas ambas eternas. A magia estava instalada. Os pensamentos e atitudes da moça prescindiam da palavra para se expressarem, tudo era transparente e cristalino.


Um dia o tempo fechou. Assim se diz quando as nuvens se aquartelam no céu azul e a noite se antecipa. São os tais enigmas, as forças contrárias que conspiram contra a sacralidade de um amor, ...amor perfeito? Que sei eu? Só sei que nessa impertinência metereológica a  história nublou. Cada um para um lado. Dor autêntica, lágrimas vivas. Foram dias que até o diabo renegou. Dias malditos.
Mas o tempo, grande aliado, começou a atuar em seu silêncio poderoso. Tudo passou. A imagem dele foi distanciando da mente da moça, como se fosse um espelhismo, até quase desaparecer. Ela jamais o procuraria, já tinha aprendido com os pássaros que nunca se deve posar em campos onde há espantalhos.

Não obstante a paz de espírito, a alma suplementar ficou, estática, silenciosa e fria, mas ficou. Maldita alma.
 (leiam a entrada "O Espantalho")



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Adeus Madri!







Pôr do sol da minha janela










Essa é a última postagem que faço em Madri, daqui a pouco sigo para o aeroporto. Estou feliz, fui feliz aqui como era no Brasil. Terei Madri no coração para sempre, agora só quero ver minha mãe, minhas filhas e netos, irmãos e amigos. Deixo Madri sem lágrimas, sem nostalgia. Essa última seria uma opção pela dor. Foi um tempo, passou. Foi um tempo muito bom, mas em certos momentos, saltando para não tropeçar em algumas pedras, melhor dizendo, pedrinhas.

Agora só quero Brasil.

Adeus Madri!


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

"PRONTO FALEI"

Nova onda nacional: "pronto falei". Tenho escutado essa dupla da boca de todo brasileiro, que encontro ou falo ao telefone. Muitas vezes a pessoa quer dizer uma coisa mais pesadinha, ou fazer uma observação a sua conduta, usa o "pronto falei" e  a situação está resolvida. É mais ou menos como o famoso, não menos culpado, que o "fui mal". A primeira é de exclusividade de pusilânimes que nunca se posicionam e quando o fazem, saem com um "pronto falei". Esse memorável feito merece uma comemoração à la Champagne em casa, às vezes Cidra, é mais baratinho. O segundo é uma saidinha clássica de coisas que não poderiam ter sido feitas. Por exemplo : dirigir bêbado e atropelar 5 pessoas, deixando 3 sem vida. Ao invés de se matar para não carregar a culpa, só murmura:"fui mal".








Logicamente ambas as expressões têm um aspecto positivo Só falarei da primeira. Eu a vejo como uma liberação de coisas guardadas e resguardadas. Um dia a pessoa revela a antipatia e já se desculpa com o antipático "pronto falei". Falasse antes, que medo é esse do "Nada", que atormenta a alma do ser humano e passa a vida engolindo coisas indigestas e um belo dia libera a alma, mas não dá ao outro nem o direito de defesa, nem uma possibilidade de mudança de comportamento se fosse informando antes do que chateava o chateado. Aliás os chateados também chateiam muito os outros. Eles adotam formas sub-reptícias de se vingarem.

Não existe ser humano que passe por cima de ofensas ou humilhações. Abro um parênteses para deixar claro que as ofensas e humilhações estão, na maior parte das vezes, embutidos nos complexos e fragilidades de cada um. O ponto é que a forma de dar o troco, nunca é a tradicional. Ela aparece nas formas mais diferentes e de tal forma que o outro nem se dá conta que "aquele comentário maldoso", é um troquinho por algo que estava guardadinho e já mofado pelo ódio. Mas, e a coragem de dizer? E a coragem de enfrentar? O enfrentamento pressupõe perdas, que nem sempre são interessantes para os adeptos do "pronto falei", a grande glória a ser conquistada!

O "pronto falei" expressa duas características da pessoa: a primeira é a covardia de não resolver os problemas na hora e a segunda, que é, de certa forma benéfica para ela, é a liberação do que só com um "pronto falei" por trás, dá conta. Observe que o `'pronto falei" pode ser expressado de outras formas. Também não pode passar desapercebido que o "pronto falei!", precede uma fuga rápida do local. O covarde não fica para escutar a resposta, ele não a suporta. Até chegar à ação heroica de falar algo ofensivo para alguém, ele já passou por várias etapas, (rsrsrsrs) e também já escutou muitas e não reagiu.

Afinal, as pessoas não são únicas? Siderar o outro é uma arte, mas há de saber fazê-lo e isso é para poucos.


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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

REAL MADRID X ESPANYOL







Embora não pareça estava animadíssima neste jogo. Há muito queria ir ao Estádio Bernabéu, mas por uma razão ou outra fui adiando e só nessa última terça-feira, tive a felicidade de assistir a partida. Fui só, eu e minha torcida pessoal. A todo tempo lembrava-me do Glorioso Galo, pelo qual sou fanática, mas me dei conta que também sou fã do Real Madrid. O jogo foi uma maravilha, como madridista doente, o hino do time é tocado e cantado por Placido Domingo. Emoção pura. Lágrimas por toda parte, ao mesmo tempo que pensava no meu Atlético, gritava pelo Real Madrid.

Isso foi importante na medida em que me dei conta do quanto essa cidade me cala fundo. Na hora em que você torce, aplaude e vibra pelo time de futebol local, significa que parte de seu coração pertence, se isso é possível, à cidade. Na hora do gol foi a glória total, sentia-me como um pássaro nos ares, ali não havia repressão, eu era dona absoluta de todas as minhas emoções e as manifestava como se no mundo só existisse eu. Vergonha? Nenhuma. "Dále Madrid", era o que eu ouvia e fazia coro com as milhares de pessoas que estavam ali. Estádio lotou nos últimos 10 minutos antes do início do jogo, frio de matar, mas nada pode impedir um madridista de homenagear o time. Quando acabou o jogo com a "nossa" vitória, senti que podia morrer ali, morreria feliz. Eu vi o Real Madrid, eu vi o time jogando com garra, vi o Espanyol, que é um time de Barcelona também lutando, mas o Madrid levou o V de vitória.

Voltei de táxi, o motorista me confessou que detesta futebol. Meu ódio foi imediato: "Ah, quer dizer que o senhor não tem uma paixão na vida? Tenho senhora, sou viciado em jogo de cartas. Jogo de baralho, perguntei? É passo todos os finais de semana jogando, respondeu". Ali acabou nosso diálogo. Que coisa mais entediante, pensei, ficar horas à frente de uma mesa, sem se movimentar com nada que não sejam os olhos, olho na carta, olho no parceiro.

Antes de descer do táxi perguntei ao viciado, "que dia o senhor nasceu, ele respondeu meio sem graça, no dia 12 de julho, o senhor comemora, continuei? Sim se não é sábado ou domingo,  por causa do jogo de 'cartas'. Quantos anos o senhor tem, me atrevi. Tenho 41, respondeu. O senhor já pensou que nesses  41 anos de vida, passou 41 vezes pelo dia de sua morte sem o saber? Desnorteado ele perguntou, mas o que isso tem a ver com futebol ou baralho? Nada, senhor, é só mais um dos enigmas da vida.

O certo é que os seres humanos e nem todos, só sabem o dia do seu nascimento, em comum, não têm mais nada. Tudo é uma questão de idiossincrasia, cada um veio a esse mundo defender sua singularidade, grande enigma.


FLAUBERT E O BOLERO DE RAVEL



O primeiro acorde é o sinal daquilo que só algumas almas entendem. Não são almas comuns, são almas em sintonia. A sintonia em que o amor é engenheiro e construtor. Poucos no mundo conhecem essa magia. Só a música empresta a ela a sensualidade que os corpos materializam silenciosamente. O trotar dos cavalos descendo pelas ruas que ladeavam a Catedral de Notre Dame, descritas por Flaubert, entoavam e davam vida aquilo que as laterais da carruagem tinham a exclusividade de testemunhar.

Os amantes sempre precisam de algo mais que os próprios corpos. Ravel o fez. Talvez e provavelmente, ele não sabia que aquele Bolero, menos de um século depois de Flaubert, poderia substituir o trotar dos cavalos. O Bolero seria a expressão musical, cadenciada pelos movimentos, que com mais ou menos ardor, Madame Bovary, movida pela loucura da paixão, desafiou a sociedade francesa em nome do que lhe era mais caro: o exercício do amor total. Enquanto o Bolero aumenta o tom e cresce como se almejasse o infinito, o ballet bailado e sublimado, se blindado pelo amor verdadeiro, também aumenta na simbiose que torna dois seres em um só e assim permanecem clamando pela eternidade. O amor sem amor é subutilizar as possibilidades de entrar em consonância com a música e conhecer o Nirvana.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

VOU VOLTAR






Quando Gonçalves Dias escreveu a "Canção do Exílio" em Portugal, certamente não lhe ocorreu que seu poema seria eternizado no coração de todos que o leram. Dizem que os leitores são co-autores das obras dos escritores. Concordo. Só o fato de gostar, não gostar, achar que poderia ser escrita de outra forma, confere ao leitor essa função, lógico que de menor grandeza.

Não há beleza, não há modernidade, não há nada que apague no coração de quem está longe da Pátria essa saudade doída, saudade de arrancar lágrimas vivas, saudade de sentir dor no peito, ainda que todo esse sentimento seja contido e escamoteado em risos e histórias para distrair o coração.

Há dias que busco nas fotografias, como Machado de Assis, uma companhia para estar comigo, "Na ausência de alguém, jante com o retrato". Quantos retratos, quantas lembranças, são lembranças coloridas de verde e amarelo, são os símbolos da Pátria, que tantos morreram e morrem por ela. Seja ela qual for, tudo "Por amor à Pátria", como intitulou Maurizio Viroli em seu belo livro. A Pátria é onde está nossa ancestralidade, nossos mortos, nossos pais. E é para lá que eu quero voltar.


Vou voltar, Priscila,
Vou voltar, Rachel,
Vou voltar, Paula,
Vou voltar, minha mãe.

Sabem por quê?
Porque além de vocês,
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá.

São palmeiras e palmeirinhas,
Que eu as deixei soltas por lá,
Mas, em breve, muito breve
Tudo voltará ao lugar.

A que ponto posso falar,
Que nada mudou, impossível,
Mas aqueles que em mim habitam
Nem o tempo pode mudar.

Não permita Deus que eu morra,
Sem nelas colocar meu olhar,
Palmeiras como aquelas,
Eu nunca vi por cá.

No dia em que eu voltar,
Ninguém sentirá o que sinto
Só dentro de mim estará
O alivio de em minha terra pisar.

Saudade é um sentimento autônomo,
Que dói só de aflorar,
Mas o consolo que salva,
É a certeza de para o Brasil voltar.


CANÇÃO DO EXÍLIO


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas
Nossas várzeas têm mais flores
Nossos bosques têm mais vida
Nossas vidas mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá,
Minha terra tem palmeiras;
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores
Que tais não encontro eu cá
Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;

Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem que eu aviste as palmeiras
Onde canta o Sabiá







































MMMi

domingo, 19 de janeiro de 2014

SAUDADES DE MARÍLIA - MADRID 2013 - 2014







Quisera ser um poeta
Para à Marília, poder falar
Fique menina, mais uns dias
Para o sol aqui brilhar.

Agora que faltam algumas horas
Para a partida que há de chegar
Sinto dor em todo o corpo
E por seguro por ti chorar.

Tem sido um tempo inesquecível
De com você  poder estar
Mas para isso existe a memória
Que viva nela você estará.

Chegou de mansinho e silenciosa
Traço que nunca modificou
Marília você é um encanto
Que a todos conquistou.

Doravante os dias serão vazios
Sem ninguém para seu lugar ocupar
Não sei por que já vai embora Marília
Só para à tristeza dar lugar

Rimas pobres mas sinceras
Disso sempre lembrarás
Marília amiga, amiga querida
No meu coração morarás.

Dele será uma ilustre inquilina
De outra forma não sei me expressar
Saudades antecipadas já sinto
Que falta você já me faz

Como rimar é difícil
Como os poetas são sublimes
Queria ter o dom do mais simples
Para poder melhor me expressar

Da Espanha levarei saudades
Lembranças que guardadas ficarão
E você, oh doce Marília
Estará junto ao coração.

Se um dia de mim se lembrar
E alguma saudade lhe bater
Saiba de um coisa Marília
De você jamais vou esquecer.

Madri é uma cidade muito linda
A nós nos tratou com amor
Mas das penas da vida, uma delas
É que certas alegrias acabam em dor.

Madri para mim tem um colorido
Que o tempo nunca maculará
Foi sua presença amiga
Que com sua graça ajudou a pintar.

Vá Marília, há gente te esperando
Aqueles que a ti te têm amor
Mas não seja ingrata querida
Com os que pelo mundo deixou.

Ainda que não nos vejamos nunca mais
Nunca se sabe o que está por acontecer
De você Marília tenha a certeza
Jamais hei de me esquecer.

"AINDA BEM QUE NÃO SOU SURDA"

Há coisas que irritam a todo mundo, melhor, a quase todo mundo. Eu sou uma pessoa naturalmente bem humorada, mas prontinha para me irritar com as coisas mais inusitadas. Tolerância zero mesmo. Imagino que faço as mesmas coisas que me irritam nos Outros. Dizem que a gente observa no Outro aquilo o que é, melhor dizendo, nos projetamos no Outro. Não concordo. Há toda sorte de gente nesse mundo, entre o chatinho e o insuportável, passamos por uma gama que só não é infinita porque limitei minha antipatia na categoria dos insuportáveis. Se sou isso tudo, darei cabo da minha vida nesse momento. Só não o faço porque Deus me privilegiou com uma vaidade sem limites. É ela que me salva de enxergar a mim mesma, verdadeira salvação nesse mundo de lágrimas e ranger de dentes (rs). 
 
Dizem que todo homofóbico é um gay que 'ainda' não se revelou.
Discordo radicalmente. Das tiranias sociais, essa é a capitã do time. Mas se tomarmos a afirmativa acima como verdadeira e a estendermos às incontáveis áreas do preconceito, entraremos no labirinto da mentira humana. A Ku Klux Klan teria sido uma organização de brancos que queriam ser negros, a negritude era o desejo velado de seus adeptos. Hitler queria tanto ser judeu, que mandou matar a todos, por pura frustração de não ser um deles. Aqueles que maltratam os pobres e desvalidos sonham com a indigência. Os que destratam e desprezam os ignorantes não passam de sábios que se auto-rejeitam. Fica difícil tomar esse caminho para entender o preconceito, não? Acho mais simples dizer com a cara limpa, "não gosto disso ou daquilo e assunto encerrado". Mas não sigam essa ideia, é crime inanfiançável. Só se pode falar aquilo que não fere ao diferente. Só essa frase já é um preconceito da pior qualidade. Assunto sem fim. 

Voltando ao tema que me propus a escrever, vou comentar apenas umas poucas entre as várias coisas que me alteram o juízo.
 
1) Conto um ocorrido que pode ser do mais trágico ao mais irrelevante. O interlocutor não escuta até o fim e fica sôfrego para contar várias outros ocorridos do mesmo tipo, só para rebater. Isso é detestável. Em geral, esses "interventores" são indiferentes ao problema do outro (se for o caso). No caso de doenças, a coisa é infernal. Se conto que sofro de um mal, me exaurem com o número de casos de gente que morreu com a mesma enfermidade ou que está entrevado numa cama. Outros ficam caladinhos, mas erguem as sobrancelhas e retraem levemente os lábios. Quer cara mais antipática e ameaçadora? O doente em si ou a tragédia contada fica para segundo plano, e no lugar entra a história "nada a ver" do insensível. 

2) Falo uma frase ou me vem uma ideia inédita, criada naquele momento. O interlocutor na hora já vem à carga: " imagine que falei exatamente isso ontem com fulana". Minha antipatia vai aos píncaros da lua. Essa doença é aquela de querer tomar para si a criatividade e o ineditismo do outro. Muito comum. Além de roubarem minhas ideias, as antecipam para não haver problemas de autoria. Isso me leva à loucura. 


3) Conto um caso meio inacreditável. Isso me ocorre muito porque presto atenção no mundo. Tudo pode acontecer, até o inacreditável. Se não acontecesse o mundo seria uma monotonia total. O que está ouvindo o caso, não só duvida, mas olha para uma outra pessoa da roda e meneia a cabeça indicando que acabaram de escutar uma barbaridade. Nesse caso, não tenho antipatia do outro e sim ódio de mim mesma por ter votado contra a venda de armas no Plebiscito de 2005 (5)? Certamente, se estivesse armada, daria um tiro certeiro na cara dessas pessoas, que "donas da verdade", ridicularizam o outro por uma história que, na maior parte das vezes, é verdadeira, mas foge ao cotidiano. Melhor expressando, a vida passa desapercebida para a maioria das pessoas. 

4) "Adoro gays". Odeio essa frase. Ninguém adora gay, a gente adora várias pessoas, essa adoração independe da condição sexual do outro. Há gays insuportáveis e heteros mais insuportáveis ainda. Logo, essa frase é uma grande falácia, proferida por preconceituosos juramentados que escondem seu verdadeiro sentimento. De mais a mais adorar, só a Deus. Pelo resto temos uma pequena simpatia. Bem, há algumas exceções. 

5) Detesto ouvir certas palavras que precedem ordens: "já que".....vc está na cozinha, aproveita e pega um copo de Coca e faz um sanduiche para mim; "aproveita".....que está no centro da cidade e compre uma linha preta de seda no Armarinho São José; "quando vier"..... passe pelo shopping e .... Enfim, essas são algumas palavrinhas que soam como agulhas nos ouvidos de quem as ouve. O folgado fica na dele dando ordens ao infeliz que foi descoberto em algum lugar que possa ter uma coisa de seu interesse. Isso é muito comum quando as pessoas viajam, são as famosas listinhas dos "encomendadores". Tudo é fácil para o outro.

6) Carona, essa a palavra já diz. Nada pior no mundo que pedidor de carona. Você vai para o sul, o aproveitador vai para o norte e tem "cara" de te pedir uma carona. Tenho ódio de levar ou buscar qualquer pessoa da categoria 'carona', em geral, vira obrigação. E mais, os caroneiros descem do carro sem um 'muito obrigada'. Quando combino com alguém que ao dia seguinte vou dar-lhe uma carona para a universidade, por exemplo, passo a noite acordada para não deixar o outro na mão, fico com medo de acordar doente, sei lá...compromisso com acompanhante não é o meu favorito. 

7) Ouvir detalhes de viagens de um desconhecido meu. Fico pensando como alguém pode pensar que interessa a qualquer pessoa nesse mundo a viagem de um ser que nunca viu? E as compras? E as maravilhas? "Já é a terceira vez que 'fulana' vai ao Vale do Jequitinhonha. (Cantem a música) " É gente humilde que vontade de chorar...".

8) Não suporto namorados falando como criança. Coisa mais jeca não existe.

9) Ruído de mordidas em maçã: irritam à morte. Acho que irrita sobretudo aos diretors de cinema. Observo que o "bandido"do filme, a certa hora, abocanha uma maçã. Sinal de mau caráter. risos 

10) Mascador de chicletes de boca aberta, escancarada, permeada por bolas e plocs. Paro aqui, já estou com antipatia mortal só de pensar nessas coisas. As outras são indizíveis e pior, infinitas.

domingo, 12 de janeiro de 2014

A CHEGADA











Essa entrada aqui não vai para ninguém em particular. Todos deveriam saber que estar fora do país por um tempo longo, tem os dois lados: o bom e o ruim. O bom é o glamour de vir e o glamour de ter estado...conseguiu ficar, grande vitória. O ruim é ficar longe do Brasil, ainda que esteja feliz por uma série de acontecimentos, sobretudo na área do trabalho, sonha quem pensa que isso é um "sonho". O sonho pode ser a vontade de vir, mas a realidade pode ser um pesadelo. Não foi para mim, mas é para inúmeras pessoas. Há de ter muita gana para chegar até o fim desses estágios, sem vacilar.


As conversas entre brasileiros "exilados" são sempre permeadas por histórias do Brasil, da região onde vive cada um, histórias familiares, tristezas com as notícias imprevistas e sobretudo o sofrimento pelas ameaças de tudo que acontece de tragédia no país. As pessoas que estão fora, sabem o que é viver no Brasil e sabem como as coisas rolam por lá. Além disso, em todo grupo no exterior, há o "correio da notícia ruim", é aquele que passa o dia na internet buscando informações para passar em primeira mão. Ninguém precisa torturar os que estão fora contando os absurdos que acontecem no país, aqui se sabe de tudo. No entanto, é para lá que todos querem voltar.


Paradoxalmente, a volta é banhada de lágrimas, também não é fácil voltar e deixar para trás certas pessoas excepcionalmente únicas e também um tempo, que jamais será vivido da mesma forma. Bem, isso é o óbvio da vida.


Quinta-feira última, despedindo de um amigo que voltou para o Brasil, me dei conta que essa experiência tem um aspecto detonador no sentimento da gente, é a perda permanente. Aqui fazemos novos amigos, com alguns poucos manteremos o contato pelo resto da vida, mas a grande maioria, certamente, não veremos nunca mais. É uma história muito parecida com a que se passa com os colegas de colégio. Depois de convivermos por anos, acontece a formatura e...nunca mais. O contrário também é verdadeiro. Algumas pessoas muito chegadas que deixamos no Brasil,  são incapazes de dar um telefonema ou mandar uma carta para o amigo que partiu, ainda que a despedida tenha sido repleta de emoções e promessas de contato. O esquecimento vem quase na mesma medida de ambos os lados, os de cá e os de lá. Há algumas poucas exceções.


Mas o que mais irritou essa pessoa na festinha de "adeus", foi a antipatia prévia de ter que responder as mesmas perguntas, para todas as pessoas que vier a encontrar nos próximos cinco anos. (rsrsrs) São dois blocos de perguntas a enfrentar, o primeiro é feito pelos que sabem que você esteve fora e o segundo pelos que não sabem.


Perguntas feitas pelos que sabem da sua estadia no exterior. O calvário começa no aeroporto por várias pessoas ao mesmo tempo, ah, e tudo aos gritos.


1) Oi, fez boa viagem? Valeu? Fez tudo que tinha planejado? Viajou pela Europa? ( se sim, é um safado, se não, é um otário).
2) Você não vai se acostumar com isso aqui, já deve estar sabendo, né? A vida caríssima, bandido em todas as esquinas, assaltos à mão armada, trânsito infernal, nada funciona, governo roubando até dentadura dos pobres, um horror, porque voltou para esse inferno, seu idiota? (já talhou o sangue)
3) Passou rápido, mas você fez muita falta, ouviu? (primeira mentira)
4) Arrumou namorado (a)? nem um toureiro matador? INCOMPETENTE! (primeira ofensa)
5) Comprou muita coisa? Essa blusa é nova, deve ter comprado BARATÍSSIMO. ( fantasia histórica)
6) Parece que você engordou uns quilinhos, vai, conta logo, 7 ou 9 quilos? (tapa na cara)
7) Guardou algum dinheiro? Não? Tem que pagar IPTU, IPVA, IR, etc, etc, etc...Prepare-se porque seu salário está 40% defazado, inflação comendo solta, tá? (é a miséria iminente)
8) Estava frio? Você vai ver o calor dessa terra, não se respira mais.
9) Quando volta a trabalhar, já ficou muito tempo à toa, né? (punhal no peito)

Essas são apenas para começar.


Nisso aparece um infeliz que você não vê há anos, te abraça no meio da turma, que já te siderou e começa, na maior insensatez,  a fazer perguntas que fazem parte do segundo bloco. Lógico que não vou importunar os que estão lendo esse Blog e enumerar as perguntas que só começaram a proliferar.

Esse é o ponto da ambiguidade humana, se as pessoas são "over", despertam em você os mais puros ímpetos assassinos, se são indiferentes, depressão na certa.

Para evitar que a chegada de um seja seguida de outra imediata partida, até mesmo para o Além, as pessoas têm que se dar conta da delicadeza do momento. O viajante está fora do seu estado normal, entendam isso. Nada de abraços apertados e longos, nada de perguntas, nada de puxar para si a pessoa para uma conversinha particular nada a ver, nada de flores, nada de buzinas, sanfonas, pipoqueiros, fantasias, foguetes, lágrimas descontroladas, dramas, etc...


Aquele que chegou de uma viagem de 10 horas dentro de um avião, que passou por pavores nas turbulências sobre o Atlântico, que deixou para trás amigos que gostava, que está literalmente a um passo da morte, tem que ser tratado com piedade. Dê-lhe dois dias para por os pés na terra, ele terá o resto da vida, se sobreviver, para contar tudo que você precisa, precisa não, quer saber.


Já nos foi mandado um email com cópia para os que foram na despedida: "Viagem tranquila, chegada tensa, camisa rasgada, várias escoriações, almoço com 40 convidados, malas abertas por gente que nunca vi. É a derrota. Saudades eternas, de hoje não passo".

 

domingo, 5 de janeiro de 2014

ZONA DE CONFORTO

A grande guerra a ser enfrentada na vida é a busca da tal "zona de conforto". Essa expressão, quando cunhada, foi dedicada aos "perdedores na vida". Ninguém se deu conta dessa ironia e muitos passaram a usar essa dupla de palavras, como uma forma sofisticada de identificar e justificar a própria vida. As pessoas que privilegiam a "zona de conforto", em geral, são criaturas pobres de espírito, que não evoluem e que costumam ser como as orquídeas: parasitas. Elas vivem da seiva de alguém, que por mais insuportável que seja, a contrapartida é a confortabilíssima "zona de conforto". Ela prescinde de atitude, de garra, de trabalho e tudo o mais, ela é a "zona de conforto" e assunto encerrado. Existem várias "zonas de conforto" e elas aparecem em todas as situações na vida. Em primeiro lugar, há de banir para sempre a "zona de conforto" que não seja uma construção própria."Zona de conforto" do outro é prisão, ausência de liberdade, vida controlada. Isso vale para todos os relacionamentos ou situações. A autêntica "zona de conforto", não está exclusivamente na materialidade, aliás, reiterando, essa tem que ser garantida pelo próprio trabalho, ainda que para isso se viva franciscanamente. Poder se manter sem o suporte do outro, é uma carta de alforria que deve ser colocada em uma moldura e pendurada na porta de entrada da casa, é honrar a liberdade. O outro aspecto vital na "zona de conforto" é a tranquilidade emocional. Após ter assegurada a independência ficanceira, há de se tratar das emocionais, fundamentais para a paz interior. Existem inúmeras "zonas de conforto" mentais. Nelas podemos navegar livremente, nelas temos a prerrogativa da privacidade total, ninguém entra, são zonas hermeticamente fechadas. Se si sente mal em uma delas, transporte-se para outra rapidinho impedindo que um pensamento negativo priorize em seu psiquê. As "zonas de conforto" mentais são constituídas pela indestrutível força da memória. Nela podemos selecionar aquelas que nos leva ao lugar de uma felicidade pretérita. Pode ser a lembrança de alguém, de um tempo, de uma convivência, que se transformam aos pouco em uma saudade acalentadora da alma. Hoje, andando pelas ruas de Madri, dando cliques com os olhos para fotografar cada pedacinho da cidade, descobri que esse patrimônio que trago dentro de mim, poderia ser uma das minhas zonas de conforto doravante. Nunca senti saudades "a priori" de nada na vida. Estou sentindo saudades de Madri, estou inteiramente enfeitiçada pela cidade. Essa é uma sensação que desconhecia, mas sinto que tenho que sair dela. Por isso comecei a abrir fronteiras no meu pensamento para não estagnar nessa "zona de conforto", ela só é minha como empréstimo e com devolução datada. Parar nela seria gerar um sofrimento sem fim. Já enumerei mais de 10 "zonas de conforto" mentais e tenho que estar permanentemente em trânsito. Hoje estou em uma "zona de conforto" inesquecível. Amanhã passearei em outra ou outras.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

MATARAM GARCIA LORCA











"Verde que te quero verde"
                             
Sobre a Guerra Civil Espanhola (1936-1939),  faço eco à palavras de Virgínia Wolff, " a guerra é uma decisão de homens e não de mulheres". 

Foram heróis, lutaram com exércitos de milicianos que não conheciam a guerra e menos ainda as estratégias modernas para encarar os nazistas alemães e fascistas italianos, que vieram para ajudar Franco. Stalin  apoiou os Republicanos, as Brigadas Estrangeiras vieram de mais de 50 países para lutar pela democracia. A República foi vencida, mas os vencedores levaram, mas não ganharam. Os espanhóis podem esquecer, mas perdoar, jamais.
Como afirmou o General De Gaulle, " em guerras em que há irmãos lutando contra irmãos, a guerra acaba, mas a paz não chega". 

Entre as incontáveis vítimas dos crimes cometidos pelo bando franquista, estava o grande poeta e dramaturgo granadino Frederico Garcia Lorca aos 34 anos, em 1936. 

O ROMANCE SONÁMBULO   (só trancrevi uma parte)

Verde que te quiero verde.

"Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas".      


(Sublime, é o que se pode dizer de Lorca)

No entanto, o terror à repressão franquista silenciou a Espanha, por muitas décadas. Antonio Machado,
 um dos maiores poetas  espanhóis do século XX, foi uma voz que não se submeteu às armas. Com pluma e a alma em luto nos deixou essa outra maravilha:

EL CRIMEN FUE EN GRANADA: A FEDERICO GARCÍA LORCA

I El crimen

Se le vio, caminando entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico
—sangre en la frente y plomo en las entrañas—
... Que fue en Granada el crimen
sabed —¡pobre Granada!—, en su Granada.

II El poeta y la muerte

Se le vio caminar solo con Ella,
sin miedo a su guadaña.
—Ya el sol en torre y torre, los martillos
en yunque— yunque y yunque de las fraguas.
Hablaba Federico,
requebrando a la muerte. Ella escuchaba.
«Porque ayer en mi verso, compañera,
sonaba el golpe de tus secas palmas,
y diste el hielo a mi cantar, y el filo
a mi tragedia de tu hoz de plata,
te cantaré la carne que no tienes,
los ojos que te faltan,
tus cabellos que el viento sacudía,
los rojos labios donde te besaban...
Hoy como ayer, gitana, muerte mía,
qué bien contigo a solas,
por estos aires de Granada, ¡mi Granada!»

III

Se le vio caminar...
Labrad, amigos,
de piedra y sueño en el Alhambra,
un túmulo al poeta,
sobre una fuente donde llore el agua,
y eternamente diga:
el crimen fue en Granada, ¡en su Granada!

Nota: procurem saber sobre a obra de Frederico Garcia Lorca, o poeta de Granada e sobre Antonio Machado que morreu na França em 1936.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O ÓCIO SEM CULPA






Hoje passando em revista o meu dia, fiquei encantada comigo, sou capaz de não fazer nadinha e ser feliz.. Não fiz nada, mas ensaiei tudo. Levantei, troquei de roupa para descer para o café da manhã, não fui. Liguei o computador para escrever o artigo que tem me mortificado, nem uma linha saiu. Coloquei uma roupa para dar uma caminhada, mas encontrei uma mocinha belga no corredor que entendeu de me contar uma história, não dei a caminhada. Tomei banho para descer na hora do almoço, não desci, fiquei lendo o livro " Memórias da Casa Morta", de Dostoievsky. Comi uma maçã, não achei a menor graça, mas comi. Comecei a ouvir música, ela me tratou de canto chorado. Pensei nas novelas da Globo, fiquei saudosa do Tufão. Deitei na cama de roupa e tudo, dormi por uma hora, dormi não, morri. Acordei pensando no meu aniversário em fevereiro, queria dar uma festa para mil pessoas, uma festa linda. Queria fazer aniversário duas vezes ao ano, adoro. Eu iria vestida de dourado, uma luz irradiando felicidade. Pensei no carnaval e no grito das escolas de Samba, chorei. Tem gente que odeia Carnaval, incompreensível, mas há. Comi um chocolate, delícia. Dizem que engorda, pouco importa, comi assim mesmo com a maior alegria. Pensava com tanta velocidade que cheguei a pensar que tinha 2 cérebros. Pensei em minha mãe, sim essa é uma presença que nem a erosão do tempo, nem as falhas da memória podem alterar.Pensei em minha meninas, elas nunca me verão de costas, estarei sempre que precisarem de mim. Coloquei roupas de lã para passear nas lojas e comprar coisinhas inúteis, não fui. Abri uma Coca e tomei, ela desceu cantando o Hino Nacional. Lembrei de uma porção de coisas que já escutei na vida e conclui que nem todas as palavras dos outros passam do desenho de seus lábios, para calar fundo no coração do outro, grande perda! Olhei as fotos das minhas meninas, senti dor no peito, olhei fotos de meus netos, senti dor no peito, olhei uma foto de minha mãe, mais dor no peito. Tomei outro banho, foi ótimo, um certo exagero. Telefonei para minha amiga Rachel, gosto muito dela. Liguei a televisão e vi a novela, adoro.
Recebi um email da professora que me recebeu aqui, amanhã irei à Universidade.

Hoje foi o dia dedicado, sem nenhum preparo prévio, ao ócio. Felicidade autêntica. Nem uma notícia ruim, nem fui destinatária de um telegrama urgente, graças a Deus. Agora vou dormir com a certeza do dever cumprido. Se fosse compositora de música, o título seria: " Essa é por mim ". Agora vou deitar, pensando no Mandela, no meu interior me vem a letra da música:  "Ah se todos fossem iguais a você". Impossível. Salve Mandela!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O MITO DO LENHADOR











Criar um mito parece difícil? Não é. O mito é uma construção do homem. Como sempre, mitificar supõe falsificar. Os mitos são inquestionáveis. Eles habitam em um lugar privilegiado no universo mental das pessoas que para derrubá-los, nem o exército de Brancaleone.

A história é um dos terrenos mais férteis para a fecundação de mitos e sua subsequente imortalidade. Queiramos ou não, o mito transcende o escopo da ação do homem e isso o torna inacessível, inatingível. É notável a capacidade da memória humana em armazenar mitos absurdos e ainda reproduzi-los por séculos. Não seria uma ignomínia afirmar que a crença no mito, produz um efeito paralisante na mente. As pessoas o internalizam como cânone e o alojam em algum lugar impenetrável pela razão. Assim, ele impera soberano para sempre, favorecendo alguns e amargando a vida de outros. Esse é o lado complexo de sua existência. Há algum tempo desconstruí todos mitos que me atormentavam a alma. Dessa enfermidade já estou curada.



O fato é que esses prolegómenos só foram sinteticamente escritos para introduzir meu tema: sem ter a intenção criei um mito: o mito do lenhador. Conto a história tal qual aconteceu e fica à cargo do leitor a constatação ou não da inviabilidade do entendimento entre os homens. Só para não dar margem a outros mitos, estou querendo dizer sobre a inviabilidade do entendimento entre Homens, independente do gênero.


Um dia, cheguei à universidade e um estudante veio a mim afobado, dizia que minha aula foi amplamente discutida na aula de um outro professor. Perguntei-lhe a razão e ele me explicou que o outro professor não conhecia o "mito do lenhador", tão bem explicado por mim. Reproduzirei o diálogo.


- Eu nunca ouvi falar em mito do lenhador, de onde você tirou essa ideia?
- Falou sim professora, na aula sobre a vocação agrária da América Latina.
- Lamento meu caro, mas tenho certeza que disso também não falei, eu dou aula sobre o período colonial da América Espanhola e até há três dias atrás, quando preparei essa aula, a qual você se refere,  ainda não tinha nenhuma tese que ao menos sugerisse um projeto industrializante para a América. Ademais, a Revolução Industrial começou no século XVIII e a América ainda era uma colônia sem nenhuma possibilidade de promover um desenvolvimento nesse setor.


-Olha, Campolina você dá aula e depois esquece, eu tenho testemunhas, todos da sala ouviram quando você falou do "mito do lenhador" e hoje quando fui usar essa mesma teoria no curso de História da África, o professor ficou horrorizado com o absurdo que você inventou.
-Eu? Não meu caro, quem inventou isso foi você, argumentei. 



Nesse momento, percebi que tinha que encerrar a discussão, era uma saraivada de impropérios que o rapaz falava sem me dar um segundo de trégua. Ficou meio possuído pelo ódio por eu me furtar à autoria do mais recente mito da mitologia agrária. Comecei a ficar apreensiva com um copo de refrigerante que ele trazia trêmulo à mão. A qualquer momento aquilo ia parar na minha cara, inventei uma desculpa e sai.

Chegando no quarto andar, encontro com o tal professor e ele, com cara de sábio, me interpelou como se estivesse conversando com um membro de sua própria família: " que raio de "mito do lenhador" é esse que você inventou?" Respondi prontamente:" e você não sabe? Sem dominar o  'mito do lenhador', você não explica os países do Terceiro Mundo". Estupefato, ele me olhou e se retirou em seguida tomado do mesmo temor que eu tive em relação ao estudante. Eu também estava com um copo de Coca na mão, quisera estar com um copo de ácido, o alvo estava a um metro de mim.


Voltando para casa, dentro do meu carro, local onde meu pensamento flui no compasso do trânsito, lembrei de uma frase que tinha falado na sala. "É pessoal, estudar a economia da América Colonial, é uma tarefa hercúlea dado às diferenças e singularidades das várias regiões do continente, melhor seria rachar lenha o dia todo, voltar para casa à noite e dormir tranquilamente". Eis a origem do "mito do lenhador".


Minha única preocupação é cair nas mãos de um médico que preste atenção nas aulas como esse estudante, aliás, um ótimo aluno, afirmam meus colegas.




quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A INÉRCIA DO SENSO COMUM





Há cenas na vida que tenho minhas dúvidas se algum dias elas já aconteceram ou se voltarão a acontecer. Acho que existem cenas únicas e eu fui testemunha de uma. Certas agressões físicas não acontecem porque as pessoas não têm coragem de aviltar ou ir contra o senso comum da sociedade em que vivem. Nunca vi ninguém gritar dentro de uma igreja, quando o padre está pedindo dinheiro para as obras sociais,  que ele é um salafrário e que devia trabalhar a pedir esmola para os paroquianos. Bem, na verdade, os párocos são protegidos pelos fiéis e enquanto isso vão vivendo à custa desses crentes e devotos. Nunca vi ninguém dar um show dentro de um banco ou supermercado quando os caixas enrolam, ao invés de atender ao cliente com a rapidez que a vida moderna demanda. Esses são exemplos banais e sem importância perto das barbaridades que vemos na rua, em casa, no trabalho, no governo, e nos omitimos, preferimos não mostrar a cara.

Em geral, o que acontece é curioso. As pessoas que se envolvem em situações que "não têm nada com isso" são execradas por todos, às vezes, até pelas vítimas de injustiças, exploração, etc... Somos cordeiros, somos covardes, apáticos e o pior, cegos. Parece que tudo que temos como cidadãos, nos foi outorgado pelo Estado ou que caiu do céu, um presente. Quanta ignorância! Houve muita gente que lutou, que foi à rua, que pegou em armas, que protestou e deu a própria vida para que a grande gama de silenciosos usufruísse dos ganhos.

Hoje morreu Nelson Mandela. A África do Sul chora e chora muito. Esse homem passou 27 anos de sua vida na cadeia, lutou  pela igualdade. Esse homem não foi um homem comum, foi um homem da estirpe de Las Casas, de Bolívar, de San Martin, de Gandhi, de Luther king, de Malcom X, de Guevara  e de muitos e muitos outros que cortaram a própria carne pela justiça, pela paz, pela igualdade, pela liberdade. Esses muitos e muitos outros não são nada perto dos bilhões de pessoas, que habitaram e habitam nesse planeta. A grande maioria desses bilhões é nada. Somos nada.

Eu tenho vergonha, se tivesse que encarar um desses super homens, não teria coragem, cairia de joelhos e pediria perdão, perdão cínico, perdão por inoperância social. Pediria perdão também aos médicos sem fronteira, aos bombeiros, aos salva-vidas, aos que trabalham pelo Outro, meu Deus, que vergonha. Que pessoa inútil eu sou e para os que assumem, que somos.

Hoje morreu Nelson Mandela e eu vi uma agressão ao senso comum, aparentemente simples, mas extremamente expressiva. A justiça foi feita com as próprias mãos.

Estava um Papai Noel em frente de uma loja de brinquedos, carregando uma saco de presente nas costas. Perto dele tinha um rapaz inteiramente alterado, xingando o "bom velhinho", sem o menor constrangimento. Papai Noel não respondia aos insultos que aumentavam em virulência e volume. O moço gritava com a voz embargada pelo ódio: "você, seu canalha, é um mentiroso, um analfabeto, nunca leu minhas cartas, nunca trouxe um presente para mim, nem para uma porção de gente que eu conheço. Eu te odeio Papai Noel. Eu tenho ganas de te matar todos os anos. A quem você dá presentes?  Você sempre me enganou e eu te esperei por vários anos. Você é injusto e mau.  Você não tem vergonha, seu infame, pífio, vil, ordinário e muitas outras palavras irrepetíveis. Papai Noel imóvel. Papai Noel, responda-me, meus pais também foram seus cúmplices? Sem resposta. Você é a criatura mais discriminadora que o sol cobre sobre a terra. Você é uma fraude Papai Noel.

Quando o golpe lhe foi desferido no meio da cara bochechuda, Papai Noel caiu no chão inerte, morto. O saco de presentes abriu e ali só se via caixas vazias e papel amassado. Os transeuntes passavam e olhavam para o "louco" com repugnância, os empregados da loja carregavam o Papai Noel para atirá-lo ao lixo, os donos da loja explicavam que aquele Papai Noel também era de mentira. O rapaz saiu andando a procura de outro Papai Noel, ele ainda queria uma resposta.










segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O LOUCO DA PRAÇA








Quem não conhece a figura caricatural do louco da praça? Até as crianças se sentem familiarizadas com aquele indivíduo, tido como um alienado mental, que se diz o dono da praça..."a praça é minha". Um dia recebi um texto de Danielzinho, meu amor, no qual ele relembrava o rio que marcou sua infância, o rio era dele. Esse é o ingrediente mais marcante do louco da praça, não é o caso de Danielzinho, mas é o caso de todos nós que nos sentimos proprietários da coisa pública, de cidades, de rios, de montanhas, de praias e sabe Deus o que mais.

Sinto que o escopo desse sentimento é infinito e irracional. Podemos amar um lugar ao ponto de sentir ciúmes verdadeiros de qualquer um que por lá passe, olhe ou sinta o mesmo amor. Disputa inútil, mas real. Eu tenho minhas propriedades que não gosto de compartilhar nem de brincadeira, aliás tenho ódio que alguém mencione o nome do lugar. Isso eu chamo de insanidade mental à moda do louco da praça. O pior é que são vários lugares e até mesmo situações corriqueiras que penso serem só minhas e atuo pela vida com esta certeza.

O Museu Histórico Abílio Barreto é meu. A rua Bernardo Mascarenhas é minha. Buenos Aires foi minha, quando alguém me falava da cidade, ficava nervosa, a cidade já tinha dona e ali estava um usurpador de cidades, isso eu não podia suportar.

Agora que estou há quase 10 meses em Madri, descobri que minha técnica para desapegar de tudo funcionou perfeitamente. Madri nunca sairá de minha memória, sei que todos os dias de minha vida algum fato me trará novamente a essa cidade, que tão bem me tem acolhido. Mas Madrid, como escrevem os espanhóis, não é minha, nem um pedacinho dessa cidade é meu. Eu não quero mais nada, imagine querer uma cidade? É chegar à loucura do "louco da praça".

A única coisa que sou dona absoluta, sem sócios ou coisa que o valha, é o meu pensamento, mas aquele que não divido com absolutamente ninguém. O pensamento é o único lugar onde o homem pode gozar da verdadeira liberdade.  Graças a Deus.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Madrigal Melancólico (Foram 20 minutos depois)

Lembrei-me ontem de uma amiga que encontrei há anos na rua e perguntei-lhe sobre o marido. Secamente ela me respondeu: separamos. Porque? Ela disse: porque eu deveria ter saído daquele casamento 20 minutos antes e estupidamente sai 20 minutos depois. Essa é uma coisa que sempre trago em mente, é uma ideia que me obstina. Porque a gente se deixa passar um segundo a mais na vida ao lado de determinadas pessoas (amigos e familiares entram nessa, mas no caso, o forte são os homens), quando poderíamos  ter saído 20 minutos antes?

Por coincidência recebi hoje uma poesia e cheguei a conclusão que só vale a pena ficar ao lado de alguém, se ela representar para a gente o que diz cada verso dessa poesia. Como sabemos, só se vive uma vez. Porque desperdiçar a própria vida, estando ao lado de alguém que não mereceria um simples aceno de nossa parte? O tempo não volta, esse maldito. Mas se voltasse, tenho certeza que todos os reparos seriam feitos nesse lugar, das relações humanas.

Madrigal Melancólico

Manuel Bandeira

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
 
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.
 
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

História antipática, eu não a leria, mas não é ficção

Érico Veríssimo já alertava para o perigo de sentar-se junto a um desconhecido em um banco de praça. Segundo o renomado autor, em 15 minutos de conversa, as pessoas fazem um repasse da própria vida, em seus detalhes mais sigilosos. Sempre me perguntei o porque dessa abertura, dessa confidência tão fora de lugar. Hoje tenho consciência que as pessoas não contam a vida para um desconhecido, elas nem veem o desconhecido, elas simplesmente falam o que querem e já sabem que dali, certamente, não virão as censuras típicas dos ouvintes-amigos de histórias de vida do outro.

Eu estava sentada no banco de uma praça e ali assentou, bem pertinho de mim, uma mulher com o braço direito na tipóia e várias escoriações pelo corpo e rosto. De vez em quando dava uma gemida. De repente passou a gemer alto e eu me vi na contingência de perguntar:" a senhora está se sentindo mal? Precisa de alguma coisa?" Ela me contou a tragédia. Depois de quase 3 horas de banco na praça, já sabia que o filho mais velho demorava, quando nenêm, 45 minutos mamando em cada peito, pobre mulher! Contou-me várias passagens de sua vida, que pelo visto, não era das mais fáceis. O marido dava ataque de risos quando alcançava o orgasmo, ela tinha ódio e eu também. Contou que a filha de 17 anos era uma atrevida e que gostava de usar roupas de homem, não entendi, isso é tão normal.  Compadecida com as desditas da estrupiada, dediquei-lhe minha tarde. Ficamos amigas íntimas e inseparáveis. Mas o que realmente importa ao leitor são as escoriações de minha nova amiga. Lá vai.

Ela é enfermeira, chama-se Daluz. O acidente aconteceu dentro do hospital. Segundo Daluz, quando chega ao hospital um paciente muito grande e pesadão, a turma da enfermagem entra em pânico, sobretudo se o enfermo é uma mulher. Contou-me da luta que é para fazer a higiene da doente, colocar  e tirar a comadre sob uma mulher muito gorda, dar banho, etc...Mas o grande drama é na hora de trocar a roupa de cama, principalmente quando a doente não pode levantar. Foi nessa tarefa que o desastre aconteceu.

Ela e a companheira de trabalho, menos experiente, foram trocar os lençóis de uma criatura expressivamente acima do peso. A técnica é a seguinte: vira a paciente de lado com todo o cuidado, tira da parte livre da cama o lençol usado e já coloca o limpo que será passado por baixo do corpo da doente que deve ser virada, delicadamente, para o outro lado, já sobre o lençol limpo. A mesma coisa é feita do outro lado. Nessa ginástica os lençóis são substituídos e o assunto encerrado. Gotas de suor costumam acompanhar a função.

Nesse maldito dia a paciente meio agitada com o movimento, não colaborou com o rola rola dos lençóis e rolou junto em uma manobra nunca vista antes. Quando Daluz deu por si, estava no chão embolada com os lençóis, com a doente e com a ajudante, que na agonia de impedir o desastre, foi junto, passou por cima da cama e revirou sobre Dona Amarilda que jazia viva sobre minha amiga semi-desmaiada. O saldo foi o pior possível. Em geral, as camas dos hospitais são altas, e Dona Amarilda em queda livre deixou Daluz com um braço quebrado e escoriações pelo corpo e rosto, como mencionado acima. A ajudante não se livrou incólume, apesar de ter ficado por cima das duas. Ao cair, bateu a cabeça na cabeça da doente violentamente, está em coma com contusão cerebral. Dona Amarilda só levou um grande susto e teve todos os soros e aparatos médicos ligados novamente, depois de ser colocada na cama por 4 homens fortíssimos da Força Tarefa, chamado para socorrer a "gordinha" . A família vai entrar na justiça contra o hospital, acusando as enfermeiras de incompetentes.

Essa história é uma história triste, como disse Daluz: "as pessoas deviam ser magras, não por estética ou beleza, mas por caridade com seus cuidadores nos infortúnios da vida". Segundo ela, ninguém sabe o drama que os enfermeiros passam nos hospitais com pacientes gordos. Não é raro enfermeiros com sérios problemas de coluna, dores no corpo e para completar o quadro, ainda sofrem os desaforos dos doentes e familiares. A única parte divertida dessa tarde foi uma história que me contou Daluz, de ter precisado em uma ocasião, de 3 enfermeiras para tirar uma comadre debaixo de uma gorda. Como não conseguiram, tiveram que chamar um enfermeiro para ajudá-las,  indignado, Luisão foi na força bruta e bateu o corpo com comadre e conteúdo na parede ao lado da cama. Tomou banho com soda caustica e bebeu o que sobrou. Morreu.

Só conto essa história para que as pessoas, eu inclusive, fiquemos atentos para entender como nosso sobrepeso, pode aleijar uma pobre enfermeira e até matar os profissionais da saúde e de outras áreas.





segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O CRIME

O homem entrou na casa e antes de cumprimentar toda a família, sentada a sua espera, olhou para sua esposa e vociferou: "nossa, como você engordou, Antonieta"? A vingança estava concretizada. Pobre Antonieta, preferiria um tiro certeiro no meio da cara, a uma ofensa de tamanha magnitude e precisão. Como pode esse imberbe cometer o atrevimento de me insultar a frente dessa detestável família? Levantou-se furibunda para dar-lhe um tapa na cara lisa, mas tropeçou no maldito tapete persa e ali, como uma melancia rachada, lutava para se colocar de pé. Remo olhou para trás e disparou mais 5 tiros, os de misericórdia: "gorda, gorda, gorda, gorda, muito gorda". Antonieta o olhou com olhos mortiços e murmurou suas derradeiras palavras: "gorda não, Remo". Ainda no chão deu um sorriso próprio dos morimbundos orgulhosos perante o inevitável e morreu.

A história passou assim, vou contar. Antonieta e Remo foram casados por uns poucos anos, cinco ou seis. Ela, dona de si, com uma auto-estima bem além do merecido, rica por herança, analfabeta por pouca inteligência e bruta pela própria natureza. Remo, rapaz simples, bonito, sagaz nas ideias e comentários, emprego bom mas com baixa remuneração, era um lorde no "saber tratar". Casaram se por um sortilégio do destino e tiveram uma filha, horrorosa, menos pelo aspecto físico, mas por ser um clone da personalidade materna.

Mãe e filha se juntaram para humilhar Remo. Era daqueles prazeres inexplicáveis que certas pessoas sentem ao diminuir alguém. Remo não tinha barba, isso lhe valeu o epíteto doméstico de "o imberbe". A felicidade da mulher era colocar o marido em situação de constrangimento, Remo sempre calado. Antonieta, sem ter o que fazer, arrumou um emprego para "recrear suas tardes", foi ser contempladora da natureza. Saía correndo logo depois do almoço, já atrasada, e sentava em algum lugar bucólico, para à noite, escrever suas impressões sobre a natureza. Pretendia escrever um livro sobrenatural, explicava às amigas. Essas últimas, da mesma estirpe e psique alterado, já a chamavam carinhosamente de "Dostoieviska", único apelido compatível com o brilho da quase Nobel, Antonieta.

Extenuado pelas humilhações, Remo resolveu matá-la, só não sabia como seria o crime, podia ser à facadas, a tiro, por afogamento, tinha muitas alternativas, quem sabe por tortura? Afinal, Antonieta já lhe devia uns bons anos de humilhação. Mas o crime foi adiado, o patrão de Remo o designou para trabalhar em uma agência fora da cidade, ali ficaria por 6 meses. Remo partiu, imberbe e com ódio de Antonieta, da filha e das amigas que o encontravam na rua e antes de qualquer movimento, passavam a mão no rosto.

Voltou exatamente ao dia seguinte, quando completavam os seis meses previstos para estar fora de casa. O resto da história já sabemos. Remo ainda não sabe se a glória de sua viuvez se deve ao tombo ou à maldita palavra......GORDA.