domingo, 19 de janeiro de 2014

"AINDA BEM QUE NÃO SOU SURDA"

Há coisas que irritam a todo mundo, melhor, a quase todo mundo. Eu sou uma pessoa naturalmente bem humorada, mas prontinha para me irritar com as coisas mais inusitadas. Tolerância zero mesmo. Imagino que faço as mesmas coisas que me irritam nos Outros. Dizem que a gente observa no Outro aquilo o que é, melhor dizendo, nos projetamos no Outro. Não concordo. Há toda sorte de gente nesse mundo, entre o chatinho e o insuportável, passamos por uma gama que só não é infinita porque limitei minha antipatia na categoria dos insuportáveis. Se sou isso tudo, darei cabo da minha vida nesse momento. Só não o faço porque Deus me privilegiou com uma vaidade sem limites. É ela que me salva de enxergar a mim mesma, verdadeira salvação nesse mundo de lágrimas e ranger de dentes (rs). 
 
Dizem que todo homofóbico é um gay que 'ainda' não se revelou.
Discordo radicalmente. Das tiranias sociais, essa é a capitã do time. Mas se tomarmos a afirmativa acima como verdadeira e a estendermos às incontáveis áreas do preconceito, entraremos no labirinto da mentira humana. A Ku Klux Klan teria sido uma organização de brancos que queriam ser negros, a negritude era o desejo velado de seus adeptos. Hitler queria tanto ser judeu, que mandou matar a todos, por pura frustração de não ser um deles. Aqueles que maltratam os pobres e desvalidos sonham com a indigência. Os que destratam e desprezam os ignorantes não passam de sábios que se auto-rejeitam. Fica difícil tomar esse caminho para entender o preconceito, não? Acho mais simples dizer com a cara limpa, "não gosto disso ou daquilo e assunto encerrado". Mas não sigam essa ideia, é crime inanfiançável. Só se pode falar aquilo que não fere ao diferente. Só essa frase já é um preconceito da pior qualidade. Assunto sem fim. 

Voltando ao tema que me propus a escrever, vou comentar apenas umas poucas entre as várias coisas que me alteram o juízo.
 
1) Conto um ocorrido que pode ser do mais trágico ao mais irrelevante. O interlocutor não escuta até o fim e fica sôfrego para contar várias outros ocorridos do mesmo tipo, só para rebater. Isso é detestável. Em geral, esses "interventores" são indiferentes ao problema do outro (se for o caso). No caso de doenças, a coisa é infernal. Se conto que sofro de um mal, me exaurem com o número de casos de gente que morreu com a mesma enfermidade ou que está entrevado numa cama. Outros ficam caladinhos, mas erguem as sobrancelhas e retraem levemente os lábios. Quer cara mais antipática e ameaçadora? O doente em si ou a tragédia contada fica para segundo plano, e no lugar entra a história "nada a ver" do insensível. 

2) Falo uma frase ou me vem uma ideia inédita, criada naquele momento. O interlocutor na hora já vem à carga: " imagine que falei exatamente isso ontem com fulana". Minha antipatia vai aos píncaros da lua. Essa doença é aquela de querer tomar para si a criatividade e o ineditismo do outro. Muito comum. Além de roubarem minhas ideias, as antecipam para não haver problemas de autoria. Isso me leva à loucura. 


3) Conto um caso meio inacreditável. Isso me ocorre muito porque presto atenção no mundo. Tudo pode acontecer, até o inacreditável. Se não acontecesse o mundo seria uma monotonia total. O que está ouvindo o caso, não só duvida, mas olha para uma outra pessoa da roda e meneia a cabeça indicando que acabaram de escutar uma barbaridade. Nesse caso, não tenho antipatia do outro e sim ódio de mim mesma por ter votado contra a venda de armas no Plebiscito de 2005 (5)? Certamente, se estivesse armada, daria um tiro certeiro na cara dessas pessoas, que "donas da verdade", ridicularizam o outro por uma história que, na maior parte das vezes, é verdadeira, mas foge ao cotidiano. Melhor expressando, a vida passa desapercebida para a maioria das pessoas. 

4) "Adoro gays". Odeio essa frase. Ninguém adora gay, a gente adora várias pessoas, essa adoração independe da condição sexual do outro. Há gays insuportáveis e heteros mais insuportáveis ainda. Logo, essa frase é uma grande falácia, proferida por preconceituosos juramentados que escondem seu verdadeiro sentimento. De mais a mais adorar, só a Deus. Pelo resto temos uma pequena simpatia. Bem, há algumas exceções. 

5) Detesto ouvir certas palavras que precedem ordens: "já que".....vc está na cozinha, aproveita e pega um copo de Coca e faz um sanduiche para mim; "aproveita".....que está no centro da cidade e compre uma linha preta de seda no Armarinho São José; "quando vier"..... passe pelo shopping e .... Enfim, essas são algumas palavrinhas que soam como agulhas nos ouvidos de quem as ouve. O folgado fica na dele dando ordens ao infeliz que foi descoberto em algum lugar que possa ter uma coisa de seu interesse. Isso é muito comum quando as pessoas viajam, são as famosas listinhas dos "encomendadores". Tudo é fácil para o outro.

6) Carona, essa a palavra já diz. Nada pior no mundo que pedidor de carona. Você vai para o sul, o aproveitador vai para o norte e tem "cara" de te pedir uma carona. Tenho ódio de levar ou buscar qualquer pessoa da categoria 'carona', em geral, vira obrigação. E mais, os caroneiros descem do carro sem um 'muito obrigada'. Quando combino com alguém que ao dia seguinte vou dar-lhe uma carona para a universidade, por exemplo, passo a noite acordada para não deixar o outro na mão, fico com medo de acordar doente, sei lá...compromisso com acompanhante não é o meu favorito. 

7) Ouvir detalhes de viagens de um desconhecido meu. Fico pensando como alguém pode pensar que interessa a qualquer pessoa nesse mundo a viagem de um ser que nunca viu? E as compras? E as maravilhas? "Já é a terceira vez que 'fulana' vai ao Vale do Jequitinhonha. (Cantem a música) " É gente humilde que vontade de chorar...".

8) Não suporto namorados falando como criança. Coisa mais jeca não existe.

9) Ruído de mordidas em maçã: irritam à morte. Acho que irrita sobretudo aos diretors de cinema. Observo que o "bandido"do filme, a certa hora, abocanha uma maçã. Sinal de mau caráter. risos 

10) Mascador de chicletes de boca aberta, escancarada, permeada por bolas e plocs. Paro aqui, já estou com antipatia mortal só de pensar nessas coisas. As outras são indizíveis e pior, infinitas.

domingo, 12 de janeiro de 2014

A CHEGADA











Essa entrada aqui não vai para ninguém em particular. Todos deveriam saber que estar fora do país por um tempo longo, tem os dois lados: o bom e o ruim. O bom é o glamour de vir e o glamour de ter estado...conseguiu ficar, grande vitória. O ruim é ficar longe do Brasil, ainda que esteja feliz por uma série de acontecimentos, sobretudo na área do trabalho, sonha quem pensa que isso é um "sonho". O sonho pode ser a vontade de vir, mas a realidade pode ser um pesadelo. Não foi para mim, mas é para inúmeras pessoas. Há de ter muita gana para chegar até o fim desses estágios, sem vacilar.


As conversas entre brasileiros "exilados" são sempre permeadas por histórias do Brasil, da região onde vive cada um, histórias familiares, tristezas com as notícias imprevistas e sobretudo o sofrimento pelas ameaças de tudo que acontece de tragédia no país. As pessoas que estão fora, sabem o que é viver no Brasil e sabem como as coisas rolam por lá. Além disso, em todo grupo no exterior, há o "correio da notícia ruim", é aquele que passa o dia na internet buscando informações para passar em primeira mão. Ninguém precisa torturar os que estão fora contando os absurdos que acontecem no país, aqui se sabe de tudo. No entanto, é para lá que todos querem voltar.


Paradoxalmente, a volta é banhada de lágrimas, também não é fácil voltar e deixar para trás certas pessoas excepcionalmente únicas e também um tempo, que jamais será vivido da mesma forma. Bem, isso é o óbvio da vida.


Quinta-feira última, despedindo de um amigo que voltou para o Brasil, me dei conta que essa experiência tem um aspecto detonador no sentimento da gente, é a perda permanente. Aqui fazemos novos amigos, com alguns poucos manteremos o contato pelo resto da vida, mas a grande maioria, certamente, não veremos nunca mais. É uma história muito parecida com a que se passa com os colegas de colégio. Depois de convivermos por anos, acontece a formatura e...nunca mais. O contrário também é verdadeiro. Algumas pessoas muito chegadas que deixamos no Brasil,  são incapazes de dar um telefonema ou mandar uma carta para o amigo que partiu, ainda que a despedida tenha sido repleta de emoções e promessas de contato. O esquecimento vem quase na mesma medida de ambos os lados, os de cá e os de lá. Há algumas poucas exceções.


Mas o que mais irritou essa pessoa na festinha de "adeus", foi a antipatia prévia de ter que responder as mesmas perguntas, para todas as pessoas que vier a encontrar nos próximos cinco anos. (rsrsrs) São dois blocos de perguntas a enfrentar, o primeiro é feito pelos que sabem que você esteve fora e o segundo pelos que não sabem.


Perguntas feitas pelos que sabem da sua estadia no exterior. O calvário começa no aeroporto por várias pessoas ao mesmo tempo, ah, e tudo aos gritos.


1) Oi, fez boa viagem? Valeu? Fez tudo que tinha planejado? Viajou pela Europa? ( se sim, é um safado, se não, é um otário).
2) Você não vai se acostumar com isso aqui, já deve estar sabendo, né? A vida caríssima, bandido em todas as esquinas, assaltos à mão armada, trânsito infernal, nada funciona, governo roubando até dentadura dos pobres, um horror, porque voltou para esse inferno, seu idiota? (já talhou o sangue)
3) Passou rápido, mas você fez muita falta, ouviu? (primeira mentira)
4) Arrumou namorado (a)? nem um toureiro matador? INCOMPETENTE! (primeira ofensa)
5) Comprou muita coisa? Essa blusa é nova, deve ter comprado BARATÍSSIMO. ( fantasia histórica)
6) Parece que você engordou uns quilinhos, vai, conta logo, 7 ou 9 quilos? (tapa na cara)
7) Guardou algum dinheiro? Não? Tem que pagar IPTU, IPVA, IR, etc, etc, etc...Prepare-se porque seu salário está 40% defazado, inflação comendo solta, tá? (é a miséria iminente)
8) Estava frio? Você vai ver o calor dessa terra, não se respira mais.
9) Quando volta a trabalhar, já ficou muito tempo à toa, né? (punhal no peito)

Essas são apenas para começar.


Nisso aparece um infeliz que você não vê há anos, te abraça no meio da turma, que já te siderou e começa, na maior insensatez,  a fazer perguntas que fazem parte do segundo bloco. Lógico que não vou importunar os que estão lendo esse Blog e enumerar as perguntas que só começaram a proliferar.

Esse é o ponto da ambiguidade humana, se as pessoas são "over", despertam em você os mais puros ímpetos assassinos, se são indiferentes, depressão na certa.

Para evitar que a chegada de um seja seguida de outra imediata partida, até mesmo para o Além, as pessoas têm que se dar conta da delicadeza do momento. O viajante está fora do seu estado normal, entendam isso. Nada de abraços apertados e longos, nada de perguntas, nada de puxar para si a pessoa para uma conversinha particular nada a ver, nada de flores, nada de buzinas, sanfonas, pipoqueiros, fantasias, foguetes, lágrimas descontroladas, dramas, etc...


Aquele que chegou de uma viagem de 10 horas dentro de um avião, que passou por pavores nas turbulências sobre o Atlântico, que deixou para trás amigos que gostava, que está literalmente a um passo da morte, tem que ser tratado com piedade. Dê-lhe dois dias para por os pés na terra, ele terá o resto da vida, se sobreviver, para contar tudo que você precisa, precisa não, quer saber.


Já nos foi mandado um email com cópia para os que foram na despedida: "Viagem tranquila, chegada tensa, camisa rasgada, várias escoriações, almoço com 40 convidados, malas abertas por gente que nunca vi. É a derrota. Saudades eternas, de hoje não passo".

 

domingo, 5 de janeiro de 2014

ZONA DE CONFORTO

A grande guerra a ser enfrentada na vida é a busca da tal "zona de conforto". Essa expressão, quando cunhada, foi dedicada aos "perdedores na vida". Ninguém se deu conta dessa ironia e muitos passaram a usar essa dupla de palavras, como uma forma sofisticada de identificar e justificar a própria vida. As pessoas que privilegiam a "zona de conforto", em geral, são criaturas pobres de espírito, que não evoluem e que costumam ser como as orquídeas: parasitas. Elas vivem da seiva de alguém, que por mais insuportável que seja, a contrapartida é a confortabilíssima "zona de conforto". Ela prescinde de atitude, de garra, de trabalho e tudo o mais, ela é a "zona de conforto" e assunto encerrado. Existem várias "zonas de conforto" e elas aparecem em todas as situações na vida. Em primeiro lugar, há de banir para sempre a "zona de conforto" que não seja uma construção própria."Zona de conforto" do outro é prisão, ausência de liberdade, vida controlada. Isso vale para todos os relacionamentos ou situações. A autêntica "zona de conforto", não está exclusivamente na materialidade, aliás, reiterando, essa tem que ser garantida pelo próprio trabalho, ainda que para isso se viva franciscanamente. Poder se manter sem o suporte do outro, é uma carta de alforria que deve ser colocada em uma moldura e pendurada na porta de entrada da casa, é honrar a liberdade. O outro aspecto vital na "zona de conforto" é a tranquilidade emocional. Após ter assegurada a independência ficanceira, há de se tratar das emocionais, fundamentais para a paz interior. Existem inúmeras "zonas de conforto" mentais. Nelas podemos navegar livremente, nelas temos a prerrogativa da privacidade total, ninguém entra, são zonas hermeticamente fechadas. Se si sente mal em uma delas, transporte-se para outra rapidinho impedindo que um pensamento negativo priorize em seu psiquê. As "zonas de conforto" mentais são constituídas pela indestrutível força da memória. Nela podemos selecionar aquelas que nos leva ao lugar de uma felicidade pretérita. Pode ser a lembrança de alguém, de um tempo, de uma convivência, que se transformam aos pouco em uma saudade acalentadora da alma. Hoje, andando pelas ruas de Madri, dando cliques com os olhos para fotografar cada pedacinho da cidade, descobri que esse patrimônio que trago dentro de mim, poderia ser uma das minhas zonas de conforto doravante. Nunca senti saudades "a priori" de nada na vida. Estou sentindo saudades de Madri, estou inteiramente enfeitiçada pela cidade. Essa é uma sensação que desconhecia, mas sinto que tenho que sair dela. Por isso comecei a abrir fronteiras no meu pensamento para não estagnar nessa "zona de conforto", ela só é minha como empréstimo e com devolução datada. Parar nela seria gerar um sofrimento sem fim. Já enumerei mais de 10 "zonas de conforto" mentais e tenho que estar permanentemente em trânsito. Hoje estou em uma "zona de conforto" inesquecível. Amanhã passearei em outra ou outras.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

MATARAM GARCIA LORCA











"Verde que te quero verde"
                             
Sobre a Guerra Civil Espanhola (1936-1939),  faço eco à palavras de Virgínia Wolff, " a guerra é uma decisão de homens e não de mulheres". 

Foram heróis, lutaram com exércitos de milicianos que não conheciam a guerra e menos ainda as estratégias modernas para encarar os nazistas alemães e fascistas italianos, que vieram para ajudar Franco. Stalin  apoiou os Republicanos, as Brigadas Estrangeiras vieram de mais de 50 países para lutar pela democracia. A República foi vencida, mas os vencedores levaram, mas não ganharam. Os espanhóis podem esquecer, mas perdoar, jamais.
Como afirmou o General De Gaulle, " em guerras em que há irmãos lutando contra irmãos, a guerra acaba, mas a paz não chega". 

Entre as incontáveis vítimas dos crimes cometidos pelo bando franquista, estava o grande poeta e dramaturgo granadino Frederico Garcia Lorca aos 34 anos, em 1936. 

O ROMANCE SONÁMBULO   (só trancrevi uma parte)

Verde que te quiero verde.

"Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas".      


(Sublime, é o que se pode dizer de Lorca)

No entanto, o terror à repressão franquista silenciou a Espanha, por muitas décadas. Antonio Machado,
 um dos maiores poetas  espanhóis do século XX, foi uma voz que não se submeteu às armas. Com pluma e a alma em luto nos deixou essa outra maravilha:

EL CRIMEN FUE EN GRANADA: A FEDERICO GARCÍA LORCA

I El crimen

Se le vio, caminando entre fusiles,
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico
—sangre en la frente y plomo en las entrañas—
... Que fue en Granada el crimen
sabed —¡pobre Granada!—, en su Granada.

II El poeta y la muerte

Se le vio caminar solo con Ella,
sin miedo a su guadaña.
—Ya el sol en torre y torre, los martillos
en yunque— yunque y yunque de las fraguas.
Hablaba Federico,
requebrando a la muerte. Ella escuchaba.
«Porque ayer en mi verso, compañera,
sonaba el golpe de tus secas palmas,
y diste el hielo a mi cantar, y el filo
a mi tragedia de tu hoz de plata,
te cantaré la carne que no tienes,
los ojos que te faltan,
tus cabellos que el viento sacudía,
los rojos labios donde te besaban...
Hoy como ayer, gitana, muerte mía,
qué bien contigo a solas,
por estos aires de Granada, ¡mi Granada!»

III

Se le vio caminar...
Labrad, amigos,
de piedra y sueño en el Alhambra,
un túmulo al poeta,
sobre una fuente donde llore el agua,
y eternamente diga:
el crimen fue en Granada, ¡en su Granada!

Nota: procurem saber sobre a obra de Frederico Garcia Lorca, o poeta de Granada e sobre Antonio Machado que morreu na França em 1936.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O ÓCIO SEM CULPA






Hoje passando em revista o meu dia, fiquei encantada comigo, sou capaz de não fazer nadinha e ser feliz.. Não fiz nada, mas ensaiei tudo. Levantei, troquei de roupa para descer para o café da manhã, não fui. Liguei o computador para escrever o artigo que tem me mortificado, nem uma linha saiu. Coloquei uma roupa para dar uma caminhada, mas encontrei uma mocinha belga no corredor que entendeu de me contar uma história, não dei a caminhada. Tomei banho para descer na hora do almoço, não desci, fiquei lendo o livro " Memórias da Casa Morta", de Dostoievsky. Comi uma maçã, não achei a menor graça, mas comi. Comecei a ouvir música, ela me tratou de canto chorado. Pensei nas novelas da Globo, fiquei saudosa do Tufão. Deitei na cama de roupa e tudo, dormi por uma hora, dormi não, morri. Acordei pensando no meu aniversário em fevereiro, queria dar uma festa para mil pessoas, uma festa linda. Queria fazer aniversário duas vezes ao ano, adoro. Eu iria vestida de dourado, uma luz irradiando felicidade. Pensei no carnaval e no grito das escolas de Samba, chorei. Tem gente que odeia Carnaval, incompreensível, mas há. Comi um chocolate, delícia. Dizem que engorda, pouco importa, comi assim mesmo com a maior alegria. Pensava com tanta velocidade que cheguei a pensar que tinha 2 cérebros. Pensei em minha mãe, sim essa é uma presença que nem a erosão do tempo, nem as falhas da memória podem alterar.Pensei em minha meninas, elas nunca me verão de costas, estarei sempre que precisarem de mim. Coloquei roupas de lã para passear nas lojas e comprar coisinhas inúteis, não fui. Abri uma Coca e tomei, ela desceu cantando o Hino Nacional. Lembrei de uma porção de coisas que já escutei na vida e conclui que nem todas as palavras dos outros passam do desenho de seus lábios, para calar fundo no coração do outro, grande perda! Olhei as fotos das minhas meninas, senti dor no peito, olhei fotos de meus netos, senti dor no peito, olhei uma foto de minha mãe, mais dor no peito. Tomei outro banho, foi ótimo, um certo exagero. Telefonei para minha amiga Rachel, gosto muito dela. Liguei a televisão e vi a novela, adoro.
Recebi um email da professora que me recebeu aqui, amanhã irei à Universidade.

Hoje foi o dia dedicado, sem nenhum preparo prévio, ao ócio. Felicidade autêntica. Nem uma notícia ruim, nem fui destinatária de um telegrama urgente, graças a Deus. Agora vou dormir com a certeza do dever cumprido. Se fosse compositora de música, o título seria: " Essa é por mim ". Agora vou deitar, pensando no Mandela, no meu interior me vem a letra da música:  "Ah se todos fossem iguais a você". Impossível. Salve Mandela!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O MITO DO LENHADOR











Criar um mito parece difícil? Não é. O mito é uma construção do homem. Como sempre, mitificar supõe falsificar. Os mitos são inquestionáveis. Eles habitam em um lugar privilegiado no universo mental das pessoas que para derrubá-los, nem o exército de Brancaleone.

A história é um dos terrenos mais férteis para a fecundação de mitos e sua subsequente imortalidade. Queiramos ou não, o mito transcende o escopo da ação do homem e isso o torna inacessível, inatingível. É notável a capacidade da memória humana em armazenar mitos absurdos e ainda reproduzi-los por séculos. Não seria uma ignomínia afirmar que a crença no mito, produz um efeito paralisante na mente. As pessoas o internalizam como cânone e o alojam em algum lugar impenetrável pela razão. Assim, ele impera soberano para sempre, favorecendo alguns e amargando a vida de outros. Esse é o lado complexo de sua existência. Há algum tempo desconstruí todos mitos que me atormentavam a alma. Dessa enfermidade já estou curada.



O fato é que esses prolegómenos só foram sinteticamente escritos para introduzir meu tema: sem ter a intenção criei um mito: o mito do lenhador. Conto a história tal qual aconteceu e fica à cargo do leitor a constatação ou não da inviabilidade do entendimento entre os homens. Só para não dar margem a outros mitos, estou querendo dizer sobre a inviabilidade do entendimento entre Homens, independente do gênero.


Um dia, cheguei à universidade e um estudante veio a mim afobado, dizia que minha aula foi amplamente discutida na aula de um outro professor. Perguntei-lhe a razão e ele me explicou que o outro professor não conhecia o "mito do lenhador", tão bem explicado por mim. Reproduzirei o diálogo.


- Eu nunca ouvi falar em mito do lenhador, de onde você tirou essa ideia?
- Falou sim professora, na aula sobre a vocação agrária da América Latina.
- Lamento meu caro, mas tenho certeza que disso também não falei, eu dou aula sobre o período colonial da América Espanhola e até há três dias atrás, quando preparei essa aula, a qual você se refere,  ainda não tinha nenhuma tese que ao menos sugerisse um projeto industrializante para a América. Ademais, a Revolução Industrial começou no século XVIII e a América ainda era uma colônia sem nenhuma possibilidade de promover um desenvolvimento nesse setor.


-Olha, Campolina você dá aula e depois esquece, eu tenho testemunhas, todos da sala ouviram quando você falou do "mito do lenhador" e hoje quando fui usar essa mesma teoria no curso de História da África, o professor ficou horrorizado com o absurdo que você inventou.
-Eu? Não meu caro, quem inventou isso foi você, argumentei. 



Nesse momento, percebi que tinha que encerrar a discussão, era uma saraivada de impropérios que o rapaz falava sem me dar um segundo de trégua. Ficou meio possuído pelo ódio por eu me furtar à autoria do mais recente mito da mitologia agrária. Comecei a ficar apreensiva com um copo de refrigerante que ele trazia trêmulo à mão. A qualquer momento aquilo ia parar na minha cara, inventei uma desculpa e sai.

Chegando no quarto andar, encontro com o tal professor e ele, com cara de sábio, me interpelou como se estivesse conversando com um membro de sua própria família: " que raio de "mito do lenhador" é esse que você inventou?" Respondi prontamente:" e você não sabe? Sem dominar o  'mito do lenhador', você não explica os países do Terceiro Mundo". Estupefato, ele me olhou e se retirou em seguida tomado do mesmo temor que eu tive em relação ao estudante. Eu também estava com um copo de Coca na mão, quisera estar com um copo de ácido, o alvo estava a um metro de mim.


Voltando para casa, dentro do meu carro, local onde meu pensamento flui no compasso do trânsito, lembrei de uma frase que tinha falado na sala. "É pessoal, estudar a economia da América Colonial, é uma tarefa hercúlea dado às diferenças e singularidades das várias regiões do continente, melhor seria rachar lenha o dia todo, voltar para casa à noite e dormir tranquilamente". Eis a origem do "mito do lenhador".


Minha única preocupação é cair nas mãos de um médico que preste atenção nas aulas como esse estudante, aliás, um ótimo aluno, afirmam meus colegas.




quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A INÉRCIA DO SENSO COMUM





Há cenas na vida que tenho minhas dúvidas se algum dias elas já aconteceram ou se voltarão a acontecer. Acho que existem cenas únicas e eu fui testemunha de uma. Certas agressões físicas não acontecem porque as pessoas não têm coragem de aviltar ou ir contra o senso comum da sociedade em que vivem. Nunca vi ninguém gritar dentro de uma igreja, quando o padre está pedindo dinheiro para as obras sociais,  que ele é um salafrário e que devia trabalhar a pedir esmola para os paroquianos. Bem, na verdade, os párocos são protegidos pelos fiéis e enquanto isso vão vivendo à custa desses crentes e devotos. Nunca vi ninguém dar um show dentro de um banco ou supermercado quando os caixas enrolam, ao invés de atender ao cliente com a rapidez que a vida moderna demanda. Esses são exemplos banais e sem importância perto das barbaridades que vemos na rua, em casa, no trabalho, no governo, e nos omitimos, preferimos não mostrar a cara.

Em geral, o que acontece é curioso. As pessoas que se envolvem em situações que "não têm nada com isso" são execradas por todos, às vezes, até pelas vítimas de injustiças, exploração, etc... Somos cordeiros, somos covardes, apáticos e o pior, cegos. Parece que tudo que temos como cidadãos, nos foi outorgado pelo Estado ou que caiu do céu, um presente. Quanta ignorância! Houve muita gente que lutou, que foi à rua, que pegou em armas, que protestou e deu a própria vida para que a grande gama de silenciosos usufruísse dos ganhos.

Hoje morreu Nelson Mandela. A África do Sul chora e chora muito. Esse homem passou 27 anos de sua vida na cadeia, lutou  pela igualdade. Esse homem não foi um homem comum, foi um homem da estirpe de Las Casas, de Bolívar, de San Martin, de Gandhi, de Luther king, de Malcom X, de Guevara  e de muitos e muitos outros que cortaram a própria carne pela justiça, pela paz, pela igualdade, pela liberdade. Esses muitos e muitos outros não são nada perto dos bilhões de pessoas, que habitaram e habitam nesse planeta. A grande maioria desses bilhões é nada. Somos nada.

Eu tenho vergonha, se tivesse que encarar um desses super homens, não teria coragem, cairia de joelhos e pediria perdão, perdão cínico, perdão por inoperância social. Pediria perdão também aos médicos sem fronteira, aos bombeiros, aos salva-vidas, aos que trabalham pelo Outro, meu Deus, que vergonha. Que pessoa inútil eu sou e para os que assumem, que somos.

Hoje morreu Nelson Mandela e eu vi uma agressão ao senso comum, aparentemente simples, mas extremamente expressiva. A justiça foi feita com as próprias mãos.

Estava um Papai Noel em frente de uma loja de brinquedos, carregando uma saco de presente nas costas. Perto dele tinha um rapaz inteiramente alterado, xingando o "bom velhinho", sem o menor constrangimento. Papai Noel não respondia aos insultos que aumentavam em virulência e volume. O moço gritava com a voz embargada pelo ódio: "você, seu canalha, é um mentiroso, um analfabeto, nunca leu minhas cartas, nunca trouxe um presente para mim, nem para uma porção de gente que eu conheço. Eu te odeio Papai Noel. Eu tenho ganas de te matar todos os anos. A quem você dá presentes?  Você sempre me enganou e eu te esperei por vários anos. Você é injusto e mau.  Você não tem vergonha, seu infame, pífio, vil, ordinário e muitas outras palavras irrepetíveis. Papai Noel imóvel. Papai Noel, responda-me, meus pais também foram seus cúmplices? Sem resposta. Você é a criatura mais discriminadora que o sol cobre sobre a terra. Você é uma fraude Papai Noel.

Quando o golpe lhe foi desferido no meio da cara bochechuda, Papai Noel caiu no chão inerte, morto. O saco de presentes abriu e ali só se via caixas vazias e papel amassado. Os transeuntes passavam e olhavam para o "louco" com repugnância, os empregados da loja carregavam o Papai Noel para atirá-lo ao lixo, os donos da loja explicavam que aquele Papai Noel também era de mentira. O rapaz saiu andando a procura de outro Papai Noel, ele ainda queria uma resposta.