sexta-feira, 6 de agosto de 2010

MENINAS, MINHAS MENINAS









Tenho tres filhas mocinhas
Cada uma com seu cada qual
Digo que são minhas meninas
Gosto delas por igual.

A primeira se chama Priscila
Tem os olhos da cor do mar
Quando sorri é uma graça
Que a todos faz encantar.

A segunda é a Rachel
Essa até filhos já tem
Quando se põe a falar
É um bálsamo para a alma curar.

A terceira é a pequena Paula
De todas, como é diferente
A cada dia que passa
A florzinha me surpreende.

As tres juntas são o meu alento
Para os dias eu não ver passar
E quando nelas deito os olhos
Sinto que vão marejar.

Adoro minhas meninas
Só minhas eu sei que elas são
Cada vez que uma aparece
Bate, bate meu coração.

Saibam meninas que Deus
Quando resolveu me agradar
Mandou uma a uma por vez
Para minha vida adornar.

Meninas, minhas meninas
Se algum dia eu as magoei
Saibam que mãe é assim mesmo
Por isso já me penitenciei.

Meninas, minhas queridinhas
Das três não sei qual é a preferida
Dileta é a mais velha, a do meio?
A menor, todas são escollhidas.

Meninas de minha menina

No dia que Lara nasceu
Todo mundo chorou
Com seus olhinhos pingados
A família conquistou.

Aí chegou a Estela
Pom Pom não se aguentou
Cansada da choradeira
Foi cair na bebedeira!

As duas meninas, que lindas!
Da mais pura linha, princesinhas
A cada dia uma estória
Viva, viva as paulistinhas.


Um menino

Um menino, da família o primeiro varão
Mais lindo que um príncipe, o nenêm
Será o mais reverenciado, que dúvida
Vou morrer de tanto lhe querer bem.

Escute bem pequeno Tom
Sempre te darei razão
Mas se às meninas aprontar
Vai tomar um bom sermão.

Já pensou Larinha racional?
Sabidinha como nunca vi igual?
Argumentará com precisão
Mas não implique com ela não.

Estela correndo para cá
Você atrás dela para lá
Alcance-a meu lindo bebê
Não deixe a menina vencer.

Trio perfeito, trio meu
Até parece que perdi a razão
De longe só sei por ti rezar
Trio lindo do meu coração.







A E I O U....é o que tenho para dizer





Isso lá é verdade, os homens são de poucas palavras. Há os que falam muito, exceção da regra. Já as mulheres são bem falantes, algumas exorbitam e se dedicam a alcançar a incontinência verbal, falam muito nos dois sentidos. O ideal seria uma média, homens e mulheres falando com parcimonia. Os extremos em si trazem o problema, se o palavrório desenfreado é irritante, o poucas palavras também o é. Vou contar uma história de uma moça que no reencontro com um amigo e mais tarde com o marido, descobriu que alguns homens só sabem falar em vogais.

A moça toda radiante encontrou um amigo que pelo visto não via há muito tempo, o encontro foi patético. Ela de braços abertos gritou: meu amigo, cadê voce?
- Aí . Sem festa alguma ele respondeu.
- Tudo bem? disse ela.
- É, respondeu o moço.
- Sumido hein?
- Iiiiiii, murmurou o tonto
- Ainda está com a Juninha?
- Uh, ironizou ele. Imagino que uh significa "acorda idiota".
- E a vida está boa? Insistiu a insistente.
- Uuuuu, foi a resposta efusiva.
- Trabalhando?
- É, ué.
Sentindo a indigência do diálogo ela despediu, prazer em vê-lo, voce está ótimo.
- Óóóó, saiu ele balançando a cabeça com um andar de urubu malandro dando tapinhas na orelha.

Chegando em casa ela encontrou o marido sentado no sofá, com o "rosário laico na mão" (controle remoto), hirto, olhos parados na TV.
- Bem, disse ela graciosamente, encontrei o Zé da Juninha.
- É? repondeu com desdém o tradicional marido brasileiro.
- É e está careca, sabia?
- Iiiii, falou ele passando a mão na própria calvice.
- Nem perguntou por voce.
- Oi?
- Sim, não perguntou por voce.
- Aaa , falou ele sem tirar os olhos da TV.
- Quer comer agora? Nada, silêncio. Quer comer agora?, gritou desesperada.
- Iiiii, rosnou o marido.
- Eu sei que sou uma chata mas voce poderia me responder, seu cafajeste.
- Ó, vociferou ele levantando a mão ameaçadoramente.
- Bate, urrou ela, bate covarde.
- Ai ai ai, replicou o vogático impaciente, ostentando aquela cara de imbecíl típica dos monossilábicos.
- Bate, insistiu ela tomada pela ira.
- Iiiii, ecoou ele.
- Vai tomar banho? Vociferou ela com cara de nojo.
- Uuuuu, concordou ele com os olhos risonhos e sedutores.

Acalmada ela provocou, vamos ali? Levantando do sofá ele encaminhou-se para o quarto e sentou-se na cama desabotoando a calça.
-Voce quer? alegrou ela depois de uma sêca de 2 meses.
- Ééé, respondeu ele com um sorriso besta afivelado na boca.
- Então vamos, comemorou ela.

Depois de meia hora de bate bola ele exaurido a olhou com um ar de desânimo e para sua questão meridional com uma cara de "pois é". Abanou a cabeça e continuou a olhá-la que sorria e a plenos pulmões fez à moda da turba ignara depois de um gol contra na decisão do campeonato, uuuuuuuuuuu, até perder a voz, gritou em silêncio.

Há pessoas lacônicas, outras abusam do vernáculo, poucas são impecáveis na interlocução, mas os A E I O U são os melhores, só eles têm a consciência de não terem nunca algo a dizer. UIUI!










sexta-feira, 23 de julho de 2010

ENCRUZILHADA: A PALAVRA PROIBIDA












Quando eu ainda não tinha acesso aos dicionários e nem coragem de perguntar aos meus pais o significado de todas as palavras e palavrotas que ouvia, havia uma que me perseguia, que me feria os ouvidos: encruzilhada. Eu não sei se era o som, o momento que era proferida, sempre emitida por bocas tensas, se sentia medo do seu possível significado ou se a associava com a bifurcação danação/salvação, não sei. Para me defender da maldição da palavra, resolvi que não a repetiria jamais e essa seria daquelas palavras a ser referida como a "proibida". Pois bem, essa macabra combinação de sílabas ficou gravada de forma indelével no meu inconsciente como sinônimo do mal, do mal absoluto.

Hoje eu sei o significado da "palavra" e confesso, continuo a temê-la e ao temor ainda agreguei o ódio. Decididamente eu não convivo em harmonia com a "proibida" e não sei como livrar-me dela. A cada dia amanheço diante de uma "proibida" que bifurca, trifurca e quatrifurca, isso quando não polifurca. A vida é uma proibida. Não sei se vou ou fico onde estou. Ficar significa uma resistência ao novo, ao desafio e até mesmo a uma possível felicidade maior. Ir é o inverso. Vou, tenho que ir. Em diversas situações de confronto com a "palavra", fui e em 100% das vezes que fui, me dei bem. Nesse aspecto temos que seguir o poeta, não sabemos qual estrada tomar, mas há de tomá-la.

Decisão certa ou errada é uma questão para depois. Ah, importante é saber que ficar também é uma decisão.


O CAMINHO NÃO PERCORRIDO

Robert Frost

Num bosque de folhas amareladas
Dois caminhos havia e eu não podia
Ser dos dois caminhante
Fiquei ali a concentrar me num deles
Olhando fixamente até perdê-lo de vista
Nesta curva da folhagem distante

Mas foi pelo outro que fui
Igualmente bom, até certo ponto talvez melhor
Porque cheio de erva e a pedir que o usassem
Embora quem por ele passava
Ainda mais usado se sentisse

Tanto um como outro ali estavam
De folhas no chão que nenhum pé escurecera
Oh, deixei o primeiro para outro dia
Mas sabendo como um caminho a outro leva
Duvido que lá possa voltar um dia

Isso direi com um suspiro na alma
No tempo que durar a minha vida
Havia nesse bosque dois caminhos e eu
Eu fui pelo menos utilizado
E aí reside toda a diferença

A MUDANÇA: A ANTÍPODA DA ELEGÂNCIA




A mudança desafia qualquer pretensão à elegância, ela é humilhante, ela nos desnuda para os velhos e para os novos vizinhos, a mudança é a própria vida na praça. Defendo a idéia de que morar em um determinado lugar deveria ser igual "casamento", para sempre, mesmo porque é uma questão de gratidão, por um lado e de predestinação por outro. Os mutantes são sempre ingratos com o passado, ainda mais se para uma região melhor, nem os nomes dos antigos vizinhos são mencionados depois da mudança. Tristes reminiscências do tempo de pobreza. Aliás, essa coisa de mudar para um apartamento de localização nobre, iluminado, com dois amplos salões, sala de jantar e de almoço também, com 4 quartos (todos com suite: privadas exclusivas), dependência completa para os empregados (as incompletas não têm o quarto), com playground, salão de festas, sala de jogos, piscina, campo de peteca, garagista, alarmes, circuito de televisão interna e externa, porteiro 24 horas é o sonho de alguns, para outros o pesadelo. Nada mexe mais com a vaidade de certas pessoas como poder morar bem. Essa coisa de querer melhorar de vida com casa nova é uma enfermidade da alma. Seria fantástico se na mudança as pessoas se deixassem na casa velha. Mas, pelo contrário, levam para a casa nova o espírito velho e imutável.


Mas falemos da mudança em si. Perfeito seria se o caminhão "adeus cortiço" pudesse parar na janela e sugar tudo de dentro do detestável cuchichó que foi a razão de tanto sofrimento familiar, parar na janela do sonhado éden e enfiar tudo prá dentro, sem testemunhas. Infelizmente, não há como manter um caminhão no ar defronte da janela do décimo andar, êle cai. Por isso rogamos a Deus que a engenharia moderna se sensibilizem e faça alguma coisa para nos proteger dos olhos alheios nossas tralhas que guardamos com tanta devoção. "Minhas coisas", "minha louça", "minhas panelas", "meu sofá", "meus retratos" (a morte documentada), "minhas reproduções de Dalí", "meus tabuleiros", "meu tudo", "minha história". Essa é outra irreverência do vernáculo mal manejado. Desconheço algo mais antipático do que a frase "isso tem história", ou então aquele lugar comum dos desquitados arrependidos, "tive história com o/a fulana". História sim, mas prá ser esquecida, enterrada e coberta com cal. Nesse ponto nada mais sensato do que entender que a história da gente pode ser a anti-história do outro, então é melhor parar com esse chavãozinho besta de "minha história". O melhor é adotar definitivamente e sem lástima a máxima "o que passou, passou". Quanto os objetos de estimação, isso é lixo e o lixo é o lugar certo para elas. Conheço gente que guarda bilhetinho de colega do pré-primário e trevo de 4 folhas (sequinho) dado pelo primeiro namorado que já deu óbito há 30 anos. Doença.

Qunto à mudança, as desavenças familiares começam quando o dia do transtôrno é marcado. O que vamos levar no carro, o que vai no caminhão, quais roupas levar, a comida da geladeira, as coisas semi-usadas de cozinha e limpeza? Jogar fora, nem pensar, a casa nova vai nos deixar na penúria, na ruína, na miséria por pelo menos uma década, rosna o pai. Ah, também não importa, muxoxea a mãe, a portaria é tão linda, tem até espelho prá gente brincar de tomar susto quando olha prá êle. Os vizinhos são chiquérrimos, cada carro de matar na garagem, afora os motoristas, todos uniformizados, lindos. E as empregadas domésticas, elegantérrimas, meias três quartos, frufru na cabeça, curso superior, uma riqueza! Isso que é vida, observa a "do lar", toda eufórica.

Véspera da mudança, toda a família de guiné pelo corpo afora, a inveja vai comer solta. A execrável pobreza, vizinhança cafona, não suportará o abandono da família que superou imobilidade social. Se alguém perguntar se os móveis vão para o apartamento novo, respondam que não, vão ser doados a uma creche de velhinhos, ordena a mãe furiosa com a impossibilidade de comprar qualquer ítem para a casa nova. Além disso, não quero que o novo endereço seja dado prá nínguem aqui do bairro. Vamos romper definitivamente com essa gentalha, a começar fechando a caderneta de compras na mercearia. E ainda chamam aquele muquifo de mercearia.

Mudança de gente fina começa à meia noite, vizinhança faladeira desmaiada de tanto trabalhar, vizinhança de classe adormecida sobre macios lençóis egípcios. Quanta fantasia! Começa o transtôrno. O melhor é levar algumas coisa antes porque os homens da mudança não têm cuidado com as peças de valor...de estimação. Resolve-se alugar a Kombi que serve a todos do bairro. Mãe, choraminga a adolescente, minhas roupas eu levo na Kombi, sim filhinha, coloque-as na mala meu bem, ah não, vai amassar tudo, melhor levá-las penduradas, onde diaba, ah no cabo do rodo, imagine, e a vizinhança? Nínguem vai ver, já são duas da manhã. Tudo bem, lá se vão roupinhas de pouca marca pendurados em cabides de lavanderia no cabo do rodo que já perdeu a borracha, um vexame, mas o rodo é lembrança do chá de panela da mamãe, êle vai. Depois de encher a Kombi até o talo, a bicha sai desenfreada com os pneus quase arreados para levar o máximo de coisas para o paraíso. Anda depressa, recomenda a mãe, levem a Sebastiana com voces, saiam e entrem pelo elevador de serviço, nada de chamar atenção. Elevador espelhad, lotadinho de caixas de papelão em estado precário, entra um vizinho, lindo, chegando de uma festa, de smoking e cabelos de gumex. A jovem passa pela primeira humilhação. O pão, rapaz de boa cêpa, cumprimenta e pergunta, estão mudando, querem uma mãozinha? A pobrezinha, sem voz, olha fixamente para a escova de cabelo cabeluda que desavisadamente ficou esquecida por cima de uma caixa de sapatos lotadinha de vidros com um dedo de xampu, dentifrício no final com a tampa engastalhada, sabonete todo ressecado formando sulcos profundos, batons derretidos, lápis de olho no tôco, vidro de acetona vazio, 6 cotonetes amarrados com gominha, um desastre. Quer ajuda, insiste o príncipe, não, nosso motorista já vem, responde a jovem ofendida.

Por aí vai, até que às seis da manhã a exaustão já tomou conta de todos, o caminhão parado com os homens da mudança aos berros, segura aí pôrra, que isso, é a cabeceira da cama, cadê o pé, são dois catálogos de telefone e quatro livros. A vizinhança classe A na janela horrorizada, pasmada, ameaçada, chocada, os recém-chegados, extenuados, entregam os pontos. Chega de pose. O dono da casa, histérico, desfila trôpego pela garagem agarrado num xaxim cheio de terra sêca, com a calça inteiramente enfiada no rêgo profundo o que lhe provocava movimentos rotativos estranhos com as pernas causados pela ânsia de se livrar daquela intrusão na racha. A mãe de sandálias havaianas (perdeu a unha do dedão numa topada no canto do tanque), meio mancando, implora silêncio e reverencia os vizinhos apatetados, com a subserviência e humildade que lhe faltaram na casa velha, a coitada carregava com toda a fineza que lhe restava uma bailarina falsa com dois olhinhos vesgos, tipo loja R$1,99, nos ombros uma bolsa Gucci (comprada em China Town, New York, Soletour, todos de sacolinhas iguais, viagem inesquecível) A empregada de short e barriga de fora abraçada nas roupas que estavam para passar e nos ombros o papagaio Betão com a cabeça pendendo prá frente, uns acharam que estava morto outros que era de mentira, mas a verdade foi que o cansaço se apossou da ave, agora prostrada e afônica, o filho pequeno chorando, nariz escorrendo e um travesseiro manchado sem fronha na mão, o filho do meio, doidão, com o cabelo a la rastafari, torrando o pai porque a êle coube levar a enceradeira e um poster do Guevara, a adolescente aos prantos, nunca mais saio de casa, jurava, perdi minha única esperança de casar com um aristocrata.

Quando o relógio marcou oito da manhã, o prédio chiquérrimo já tinha sido invadido pelos emergentes ensandecidos. O chofer da Kombi, Zé Trambique, quebra galho do bairro deixado prá trás, estava sem camisa, o umbigo, 10cm. de diâmetro, completamente à vista. Sem a menor parcimônia falou arrastando a palavra molhada de pinga: ô dona Geralda libera aí uma sacola prá eu colocar esses cacarecos da senhora, tô morto. A sem sacola no auge do desvarío, sentindo fisgadas lascinantes na batata da perna direita, o dedão contundido sangrando, deu um olhar macabro para o infeliz, achegou-se bem ao pé de seus ouvidos e disparou: vai caçar sacola na puta que te pariu. Com os olhos chispando fogo voltou-se para a vizinhaça boquiaberta e uivou: ôces vão junto cachorrada curiosa. Quanto à bailarina, seu último salto mortal foi na cabeça do porteiro de libré. Esse último, gay assumido, deu um suspiro e saiu do prumo. A mudança tinha acabado. No chão jazia um saco de pão e uma mantegueira com um restinho de manteiga. Ninguém da família teve coragem de buscar o café da manhã.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

CHEGA DE BEIJO !!!




Beijo, beijos, beeeeeeeeeeeeeeeeeijo, beijim, beijoca, beijão. Coisa mais antipática, repetitiva, sem sentido, fora de lugar e de hora. É uma mania nacional que já proliferou do Oiapoque ao Chuí. E dá-lhe beijo. É o beijo sem motivo, o beijo sem rumo, o beijo sem beijo, o beijo sem glamour, o beijo sem sentimento, enfim...o beijo besta. Há os beijos sagrados, beijo de mãe e beijo de filho, esses têm um sentido outro, respeitemo-los.

O beijo clássico, o beijo parnasiano, é o beijo de amor e por amor, fácil de ser identificado. Quem o experimentou sabe, não há lugar para dúvidas. Dizem que o beijo é o termômetro da relação amorosa. É beijo que tem significado, ele fala. É o beijo do apaixonado que se entrega de corpo e alma, fecha os olhos e naquele momento não há para mais ninguém.

Mas não sei por qual contrassenso social, o beijo vem perdendo seu augusto status . Beija-se por tudo e por nada. São os beijos fracos, anódinos, nada mais que uma contração labial que pode ser esdrúxula dependendo da proveniência. São os famosos beijos estudados, que em geral têm por acompanhante um par de olhos que caem lentamente, uma afronta à miopia. Quanta situação mal parada! A gente é apresentada a uma pessoa e lá vem ela toda íntima nos agredindo com dois sonoros e ridículos beijinhos. Uma chatura, uma antipa de arrepiar!

Há os educadinhos que só encostam o rosto e nem olham para sua cara ou, no outro extremo, os que fazem do cumprimento um ato obsceno. Metem-lhe dois tirambaços molhados nas bochechas e te deixam em estado de surdez temporária tamanho o ruído produzido pelos lábios em O. Esse é um beijo irritante que deveria ser proibido por lei. Muito comum, aliás. Outra modalidade infernal é aquela que o homem beija a cabeça da gente. Tenho ódio dessa irreverência: beijo no cabelo. Há também os desatentos que beijam tão pertinho da boca que, se a vítima der uma viradinha mínima, sai dali um beijo holywoodiano. E os que beijam a mão? Esses são os fora de moda, tipo tomar a benção.

O fato é que sair de casa hoje em dia implica no risco de ganhar um beijo de uma criatura que nunca viu antes, até atendente de loja quer despedida aos beijos, principalmente se a venda for satisfatória.

Além de um ato banal o beijo tornou-se a palavra mais falada no país. Todo mundo carrega um beijo na boca, pronto para ser catapultado a qualquer momento. Posso afirmar que hoje 100% das pessoas despedem com..."um beijo" ou simplesmente "beijo". Francamente, isso é uma antipatia sem limites. Outro dia, no pedágio, o rapaz me mandou um beijo; o cara do BHTRANS me liberou de uma "blitz" com um sonoro: "pode seguir, um beijo"; o frentista do posto de gasolina sempre se despede com um: "vai com Deus, um beijo". Sem falar nos atendentes das telefônicas, cartão de crédito e instituições do gênero que parecem treinados para faltar ao decoro e mandar um beijo ao final da conversa, nem sempre simpática. Em geral não resolvem o problema pendente e, depois de todo tipo de absurdos e explicações sem sentido, te brindam com "um beijo". Que coisa mais louca é essa?

O pior é conversar com uma criatura que independente do sexo, cor ou idade, fala na maior naturalidade: "estou doido para beijar".

Chega de beijo, gente. Devolvam ao beijo sua primazia e exclusividade no coroamento das relações amorosas. Deixem o beijo para o namorado que chega e lasca na amada um beijo como se tivesse voltando da guerra. É o beijo do meu amor que tem perfume de pomar e cor de pecado....Esse é o beijo verdadeiro, é o beijo sublime.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

CORNEIA LOGO!!!!










Só de ouvir falar a palavra corno as pessoas arrepiam de medo, é o mesmo que a morte anunciada. Essa é daquelas palavras que entre o significado e o significante não há espaço para pensar, é só dor no peito. Não existe esse que nunca levou um corno daqueles bem estruturados que a única saída nobre é a rigidez sepulcral. Bem, se não levou, só não levou ainda, espere...é uma questão exclusivamente de tempo, ou melhor, falta de tempo do outro. Sabem aquele cara imbecil de carteirinha, tímido escarlate de vergonha, meio estrábico, cabelo oleoso, ignorante juramentado, pobre de dar dó, andar arrastado e papo fraco, é o maior corneador da cidade. E a mocinha faceira, andar de libélula, sorriso adocicado, corpo traçado à régua e compasso, cabelos longos e dourados, pele aveludada, voz de abajour lilás, olhar colorido, herdeira rica e filha única, é a maior "corno" da cidade. Vá entender um despropósito desses, aliás nem queira, isso é um dogma, aceite e assunto encerrado.

Há uns incautos que se metem a teorizar a razão do corno. Tarefa sem sucesso. Corneia-se por qualquer razão, os homens pela simples necessidade de ejacular a êsmo, uma bobagem, e as mulheres...essas sim, corneiam "por amor". Amor de perdição, amor bandido, sofrimento atroz. Depois do "crime" passam a vida expiando a culpa horrível de ter traído o marido e os princípios cristãos. Diferente dos homens que traem e saem felizes com o grande feito, as mulheres se auto-flagelam, são capazes de cortar a própria carne para se livrarem do cancro da culpa. Mentira universal. Mulher trai porque trai e se reveste o 'pecado' com a retórica do amor é só para não trair também a estratégia mental dos ardis femininos.

A arte de cornear está entre as artes mais desprovidas de qualquer dom inato. Até a genética mais rasteira traz intacto o gene do corno. Esse sobrevive de Adão a nossos dias, um fenômeno verdadeiro. E assim caminha a humanidade, é corno para todo lado e a consequente dor de corno sem remédio, uma tragédia geral. Esse é o maior atraso da medicina. Aquele que descobrisse uma vacina para esse mal epidêmico (ser o corno, porque cornear é um deleite ímpar) colocaria Bill Gates no bolso. Sei de gente que tomaria logo uma dose dupla para não padecer dessa dor que torna a vida impossível por um tempo. Sim, é por um tempo mesmo. Ela passa e não deixa saudades, nem lembranças.

Tenho um amigo que resolveu cortar esse mal pela raiz. Diz ele que suporta a fome e o frio, mas um corno jamais, esse o levaria à morte, morte súbita. Para sobreviver nesse mundo de corneadores profissionais, ele dispara aos gritos para a moça no segundo encontro:"corneia logo filha da mãe, livra-me dessa expectativa maldita". A moça assustada some de vez sem o tempo hábil para cornear o incorneável. Hoje ele tem registrado em cartório dois mil e quinhentos namoros de dois dias de duração. Segundo sua teoria é melhor levar para a cripta gélida as desditas da vida, a cornos históricos e imerecidos. O único namoro que durou uma semana ele corneou a moça com a faxineira do prédio. Regra é regra e nada de fugir a elas. Corneia logo!!!!!!!!!!!!!E estamos conversados.

A máxima é: "quem nunca levou um corno que atire a primeira pedra".

domingo, 16 de maio de 2010

SAIR DO MUNDO V




Isso me enlouqueceu, como uma pessoa ia prá um lugar público e não jogava uma aguinha nos pés, enojada virei de lado, saquei que tinha gente na frente. Minha fileira passou incólume, nínguem. A pessoa que estava na frente não parava de mexer, comia como Ronildinha, a bela, que até hoje sou grata pelo café e ingrata pela tortura visual. Será que Patrício ainda continua o namoro? Sei lá, às vezes tomou tenência e doravante faz pesquisa de comportamento antes de azarar as moças. Pensando melhor é bem feito para ele, tipo lento. Há um tempo atrás se as moças atacassem os homens era um horror verdadeiro, mas eles encaravam e davam conta do recado, hoje tremem de medo perante a iniciativa feminina. Por isso não tenho dúvidas, os homens têm demonstrado que são todos meio frouxos, bem, é o que me contam. As mulheres estão levando a melhor, se esbaldam e ainda chamam o cara de bicha. É a vingança retroativa às gerações pregressas que sofreram nas mãos dos “vão ver quem canta nesse terreiro”, hoje piam.

Voltando à minha triste situação de estar entre um "chula" que desafiava todos os pós antisépticos e um inquieto daqueles que incomodam até o nada, fiquei com o primeiro, a posição era mais cômoda para mim. O bom foi que o homem da frente estava comendo Mentex e quando jogou a caixinha no chão, com mãos de pluma puxei a bichinha e mandei prá dentro as duas balas que o abençoado deixou prá mim. Sentí que já estava fazendo novos amigos. Voltei ao "chula" e declarei guerra definitiva aos dois. Liguei a lanterninha, tinha que ser módica porque se a pilha acabasse a coisa ia ficar literalmente preta. A mulher, não sei se nova ou velha, carregava uma anomalia que tenho a mais solene antipatia, o dedão agressivo. Carro-chefe dos outros quatro humildes dedinhos meio encurvados nas pontas. Coisa de tirar qualquer um do sério. Pensei, daqui esse pé não saí desse jeito. Sensibilizada pelos quatro dominados resolvi dar-lhes poder, esticando-os, igualando-os. Tarefa díficil mas não impossível. Cheguei a mão bem devagarzinho perto do segundo dedo da irmã de Cinderela e dei um puxão rápido. Sem dar tempo para que ela reagisse agarrei o terceiro, o quarto e o menor de todos que tinha uma unha pontuda mais afiada que dente de cachorro nenêm. Fiquei estarrecida com a reação da dona. Ela puxava o pé, retorcia o corpo, chutava, e eu alí, agarrada. Ao mesmo tempo que ela tentava por a mão na chapona, segurava nos braços da cadeira para não escorregar chão abaixo tais eram os meus furiosos arrancos. Nisso peguei na canela dela e dei um beliscão fininho provocando na atacada um grito desentoado, e todo tipo de movimento para desvencilhar o pé do caranguejo atacante. Parece que o desespero proveu-lhe de uma força hercúlea que puxou o pé da minha mão querendo levar vantagem, mas eu, encapetada apertava o bichão com tanta força que já estava mordendo a língua e desafiando “vão ver quem arrebenta essa corda primeiro”. Decidi ganhar a briga. Com as duas mãos segurei o roquefort, arranquei a sandália do pé da inocente ordinária e joguei pro alto, a cestona (sandália de corda) acertou a cabeça do rapaz inquieto que levantou meio tonto com a sapatada e desferiu um safanão na primeira têmpora à vista, era a da desgrenhada que deu um uivo e desmaiou. A coisa ficou complicada todo mundo falando inclusive eu que apareci no tumulto gritando escandalosamente, foi êle, esse bruto, foi êle que nocauteou Frutuosa Pau de Sebo, a irmã da delicada Cinderela. O cara saiu do cinema preso, a dos “pés que insultam” de maca e eu aproveitei para ficar com a bolsa da ingrata desequilibrada que não aceitou uma ajuda filantrópica: podólogo no cinema.

Quietinha depois de tanta balburdia, de bolsa nova, assití duas sessões do filme. Fui ao banheiro vasculhei minha bolsa nova, dinheiro só dez contos, um maço de cigarros, baton quebrado, uma conta de luz, dois grampos de cabelo e o melhor....uma caixa fechadinha do meu querido LEXOTAN. Foi a glória. Tomei logo dois prá relaxar e assim fui virando dia e noite no cinema buscando coisas no chão para comer, banhos esparsos, fumando à noite depois de tudo trancado e sem a menor vontade de voltar ao mundo da claridade.
Cinema também é diversão e eu me divertia só de não ouvir as vozes das pessoas que passam a vida querendo de mim a única coisa que nunca estive apta a dar, nãp posso contar o que é senão aumenta a fila. Lembrava das coisas de minha vida mas as fileiras das cadeiras me entretinham, elas nunca se movimentavam, nunca se dirigiam a mim como se eu fôsse uma a mais, pensava no meu serviço e era como se não tivessem passados quase 20 anos que trabalhava alí, e agora, não queria voltar nem para dizer adeus. Triste, sem nenhuma vontade de ir prá casa sabia que a felicidade de morar no cinema teria um fim. Quando as portas abriram para o início da primeira sessão saí meo trôpega e azaradamente dei de cara com uma amiga que me perguntou agressivamente: o quê você está fazendo aqui? Olhei firme nos seus olhos de espanto com o meus meio fechados pela intensa claridade, sorrí e apenas balbuciei, vim ver cinema. Cheguei em casa à noite depois de dar uns bordejos pela cidade, acendí a luz, o telefone urrava, atendí, nada importante. Troquei de roupa, apaguei a luz e enquanto escrevo essa história comemoro 9 anos de vida dentro dos cinemas da cidade, a cada semana um diferente. Consigo até escrever no escuro, uma dádiva!