sábado, 20 de outubro de 2012

A Vista

 
 
Quando busco na memória, minhas infinitas fantasias de menina, mas muito menina mesmo,
sempre me deparo com uma que acalento até hoje: morar em uma torre bem alta, uma janela e nada mais. Eu gosto de ficar na janela, se pudesse, passaria o dia olhando através de uma, para mim, nada é mais deleitável nesse mundo. Dali vejo o céu, a aurora, o crepúsculo, os telhados das casas, os cães vadios andando pelas ruas, os carros, as pessoas desconhecidas, o balanço das árvores e a vida caminhando a passo lento, sem paradas para descanso. Sem paradas: verdade pura e averiguada. Depois de um tempo, tendo à frente dos meus olhos a mesma vista, o fascínio e o deslumbramento se acomodam, mas o vício de buscar essa fiel companhia, é incurável.

 
A vista é um cenário imóvel em constante movimento. Em um mesmo dia, ela é modificada inúmeras vezes, obedecendo régiamente ao capricho do vento, aos desenhos impostos pelo sol , à varredura da chuva, à escuridão amenizada pela lua e até mesmo pelo estado de espírito de quem a olha. Passei por várias janelas ao longo da vida, sempre atenta às vistas . Algumas foram minhas aliadas por muito tempo, eu as olhava e reolhava, sabia de olhos fechados todos os detalhes dos seus contornos e de seus bailados involuntários. Os dias passavam, as estações mudavam, e eu na janela, fiel ao vício, e ele, o vício, fiel a mim.

 
No entanto, o surpreendente, é a ilusão que a mais aprazível vista nos dá. Tudo ilusão. Vista é para ser vista, nada mais .Não se cogita que alguém cheque a vista de perto, essa experiência desabona a vista, e deixa a descoberto os milagres que se fingem nela.
 

Um dia, logo na primeira hora, fui à minha janela e em estado de graça, suspirei a sós. Ao longe, não muito longe, a montanha, sentinela de meu olhar, amanheceu coberta por um manto de tão forte amarelo, que até o sol, penso eu, pediu contas aos céus. Enfeitiçada pela beleza daquela vista, fui vê-la de perto. Para chegar até lá, andei algumas horas sob um sol de canícula, que, depois entendi, repreendia meu desatino castigando-me com seus raios inclementes. Nas primeiras flores que quis tocar, os insetos me impediram, os espinhos puxavam meu vestido, os galhos das árvores arranhavam meu rosto, de repente um rastejar entre as ramas e me dei com um calango negro, verdadeiro pavor, o perfume das flores me lembravam um velório que, menina, fui com minha avó, foi o fim, saí dali para nunca mais voltar. Assim como Eva, fui expulsa do Paraíso. A vista era a maçã proibida.
 
Nesse momento entendi uma poesia, que nunca saiu de minha cabeça, desde que a li:
 
Alphonsus de Guimaraens
 
Ismália
 
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
 
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
 
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
 
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
 
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
 
A vista é para ser vista, e lá vou eu...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

AS ENCOMENDAS E OS ESCOMENDADORES


A conversa já é mal parada de início. Aquela pessoa que a gente tem uma relação apenas simpática, te chama ao telefone para te desejar BOA VIAGEM. Os íntimos já estão com o golpe armado há mais tempo, só falta a oportunidade. Esse é o prenuncio da ENCOMENDA, que vem com a justificativa de saber que é a coisa mais chata do mundo. Acho mesmo que é do senso comum, que a coisa mais perturbadora em uma viagem ( que seja para o interior), é a tal listinha de encomendas. O viajante passa grande parte do passeio preocupado com o shampoo, o desodorante, o batom, a meia, a pasta de dente, a vitamina C, enfim qualquer coisa que o outro acha que pode ser encomendado. Isso é o fim da picada. É não se deixar esquecer.


A questão é que a viagem em si já tira a pessoa de seu natural habitat, logo encontrar coisas "que em qualquer mercearia tem", é no mínimo uma heresia. Aquele que está hospedado em um hotel, não faz turismo em supermercados e o que está a trabalho, só passa por supermercados para as compras da casa, o que já é demais. Nas cidades pequenas americanas a locomoção é feita de carro, as lojas não estão pertinho de casa e se a pessoa usa onibus (como é o meu caso), é um verdadeiro transtorno estar com pelo menos mais dois "quilinhos" no braço de encomendas. O "encomendador" pensa que só ele encomendou, antes fosse. São inúmeros pedidos que se você gentilmente atender, passará a viagem buscando as coisas mais inusitadas desse mundo.

Não posso entender uma pessoa que só usa a pasta de dente importada, o desodorante importado, o batom importado, o shampoo importado, o pós-barba importado, o fio dental importado, a aspirina importada e sabe Deus mais o que se pode inventar. O melhor é mudar para o lugar onde essas coisas estão à disposição, sem precisar passar a vida descobrindo quem vai viajar para disparar em encomendas


Ninguém pensa que existe limite de peso, que seus espaços nas malas valem ouro, que sair a procura de itens de toda sorte, é um inferno verdadeiro. A cor, a marca, o tamanho, nunca são encontrados, no primeiro lugar que procura, logo, dá-lhe perna para atender os pedidos. Se não os encontra, começa a viver o tormento de não levar a tal "coisinha"e perder um amigo por um simples tênis número 41, marca Nike, todo preto, com o símbolo em vermelho. Pelo amor de Deus, isso é prá matar um de desgosto.


Eu já vivi experiências absurdas, vou contar. Uma vez me pediram para comprar Henna em Barcelona (diziam ser a melhor do mundo). Depois de muito procurar, encontrei em uma farmácia a tal maldita Henna, ela estava na parte mais baixa da prateleira e bem ao fundo. A atendente era uma senhora velhinha que me sugeriu que pegasse para ela. Cena: eu deitada debaixo de um estante imunda, esticando o braço ao máximo, para pegar a encomenda. Bem, quando estava dentro do avião de volta, me chamaram pelo microfone. Sai do avião acompanhada por 2 policiais, que me levaram para a parte do bagageiro do aeroporto. Não entendia nada. Eles me perguntavam o que eu tinha dentro da mala e na inocência eu respondia que não tinha nada diferente de um turista comum. Foram 15 minutos de tortura, até que lembrei da Henna. Quando cheguei ao Brasil, a "encomendadora"morreu de rir do episódio e ainda comentou que fui presa em Barcelona por tráfico de cocaína. Essa foi uma. Tenho ódio dessa moça. Conto outra.


Estava em Urbana (EUA) e me telefonaram, que alegria! O cara queria sêmem de bode, estava pensando em criar tais bichinhos no Brasil. Ao invés de dizer NÃO, comecei a telefonar para os números que ele me deu, para perguntar quanto custava um quilo de sêmem, quanto ridículo e quanta vergonha. Provoquei muitos risos. Depois, fiquei me imaginando no aeroporto sendo motivo do escárnio dos caras da Receita. "É? a senhora então vai me dizer que tirou o sêmem dos bodinhos? Foi na bruta? Eles ficaram felizes? Sorriram? Está presa sua tarada. Prisão perpétua por "ordenhar" bodes." Conto outra.


Sabedor que minha filha estava nos EUA, um colega da universidade me perguntou se ela podia comprar uns pênis para a mulher dele, que dava aula de educação sexual. Pedi e ela que nada me nega, disse que sim. Eu sabendo de sua timidez, já previa os momentos inenarráveis que a pobre viveria. Tinha vergonha só de pensar em entrar em um loja e pedir 3 pênis (ele queria 3), um small, um medium e um large. A menina voltou para o Brasil com a encomenda na mala e o coração na mão. Como explicar tal mercadoria? Pecado não é, mas uma moça tão bonita importando pênis? Ah tem um detalhe, tinham que vir com o saco escrotal na base. Os pênis ficavam em pé, prontos para o ataque. Quando meu colega foi buscar a mercadoria, já chegou com uma cara de cão para não haver brincadeiras. Pegou os tres pênis tristonhos com a mão firme de macho e os levou para a esposa professora. Da porta perguntou: "Quanto é?" Falei o valor mas pensei, não tem prêço não, seu fdp.


Essas são algumas histórias de encomendas, tenho milhares, uma vida seria pouco para contar. Já trouxe peça de moto que sujou minha roupa com óleo, reprodução da Esfinge do Egito que quebrou e o cara não quis, botão de camisa, acetona para tirar esmalte, milhares de CDs, rolinho de cabelo, grampo, cigarro de cravo (sinto o cheiro até hoje), 12 camisetas para um gordo de 125 kilos que ocuparam a metade da mala, joguinho para criança, roupa de boneca, todo tipo de vitamina, escova de dente à pilha, apontador de lápis elétrico, partitura de música, coisas do arco da velha.


Como sou uma pessoa que devo favores a meio mundo, tenho uma sugestão a fazer. Quero pagar a todos com favores, mas com encomendas não. Posso fazer as seguintes coisas: representar em missa de sétimo dia na sexta-feira às 19hs; dar banho e cortar unhas de gato; passear com tia velhinha domingo à tarde; fazer uma torta especial no dia de Natal, ainda que eu tenha 20 convidados; assistir à apresentação da neta tocando flauta; conversar com o convidado estrangeiro na festa; dormir no hospital com a empregada operada; escrever um trabalho sobre a guerra do Vietnã para o filho vagabundo; acompanhar uma convidada sem par no casamento (já fiz isso); trocar uma calça no centro da cidade com o sol a pino; acompanhar o primo surtado no psiquiatra; distribuir folhetos de propaganda vestida de bailarina na Savassi; ajudar a escolher vestido de noiva em dia de intensa chuva e o que mais quiserem.


Ah, tem mais. Se você erra a encomenda ou não a leva, o "encomendador" com voz morimbunda diz: tudo bem e pensa: ORDINÁRIA! é crime não atender o pedido e crime inafiançavel não encontrar a encomenda, ainda que esteja em um lugar com a temperatura a 5 graus negativos. Afinal, isso não custa nada, concordam?


Meus amigos não me levem a mal, isso não vai para ninguém em particular, mas para o bem do povo e felicidade geral da Nação.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

CHUMBINHO











Foi assim, depois de 12 anos ele se foi. Quando chegou era tão pequenininho que podia dormir em uma caixa de sapato, não cresceu muito, só o bigode que precocemente apareceu aos seis meses de idade. Essa é a história de um cachorro, não um cachorro qualquer, era o Chumbinho. Escrever sobre ele dói mais que bala de revólver, mas como furtar-me a dedicar-lhe uma homenagem pública em que as lágrimas embaçam as letras.? Só de escrever seu nome, Chumbinho, fico com o coração apertado porque você era bonitinho demais, bonzinho igual eu nunca vi e no seu silêncio você se impunha como uma pessoa da família. O pior é que você era um cão, mas um cão só é um cão para os outros, você era o meu cão. Eu não sou de abraços e beijos com ninguém, você não foi uma exceção, mas você sabe que eu te amava.










Olha Chumbinho há coisas na vida que a gente não sabe explicar. Tentarei. Eu estou longe de nossa casa e hoje vi um esquilo morto na gramado de um jardim. Sua imagem me veio à cabeça de imediato. Ele estava com os olhos abertos tal qual você ficou quando se foi. Fiquei paralizada perante a cena e pensei, meu Deus que saudade dele, era a sua imagem. Era saudade que amarga a boca, saudade que dá vontade de correr sem rumo para ela despregar da gente, era saudade que eu trocaria um tempo da minha vida para te rever correndo, latindo para os outros cachorros, olhando para mim com os olhos pingados, procurando Paula pela casa quando ela não estava e eu falava seu nome. É saudade que essa palavra não contém a intensidade do seu significado.










E agora? Não tem mais agora para nós, nós já fomos. Quando contei à Virgínia que você tinha sido sacrificado foi a hora mais difícil, você estava sendo sacrificado, você estava doente meu Querido, essa barbaridade tinha que ser feita. Hoje fico pensando que sentir essa dor quer dizer que valeu a pena te ter. Você foi com a inocência de criança dormindo, isso me estraçalha o coração. Será que existe o paraiso dos cachorros? Será que a gente não se sentiria melhor se nas homilías os padres falassem da vida eterna dos animais? Seria um consolo para quem por essa perda está inteiramente inconsolável.










Você não morreu Chumbinho, vamos fazer de conta que a qualquer hora você chegará do banho todo saliente com gravatinha. Vamos fazer de conta que nada aconteceu. Vamos fazer de conta que você, meu cachorrrinho, só veio a esse mundo para me conhecer, para dar alegrias à Paula e depois ir embora. Missão cumprida com a galhardia de um cão. Amor para sempre, saudade pior castigo, insubstituível, nem um mágoa, nem uma traição, meu Chumbinho. Se todos fossem iguais a você, já ouviu isso? Seria mais fácil viver. Chumbinho.....










terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

CARREGA PEDRA E É MALTRADO: O COMERCIANTE

Isso já é histórico, o pior elemento que o sol cobre sobre a terra é o comerciante. Elemento odiado, inspirador da máxima "o mal necessário". Os judeus além de terem matado o filho de Deus, foram comerciantes. Sobre eles caiu durante séculos toda a ira da humanidade, grande injustiça, imperdoável injustiça, infâmia universal. O comerciante na concepção das pessoas é um ladrão contumaz, um explorador, paga pouco e cobra muito pela mercadoria, sem lástima. Mais um mentira no mundo dos homens. O comerciante é amado, adorado, endeusado. Que seria de nós sem o comércio? Já passaram por uma cidade com o comércio fechado? Parece que a morte a visitou. Existe dia mais triste do que aquele em que as lojas estão fechadas? Há algo mais frustrante que correr a uma simples farmácia e ver que está fechada por luto ou outra razão de menor importância? O comércio é a alegria do povo, é vida, é a possibilidade de renovar as energias. Minha teoria é essa, experiência pura. Observem um ambiente sem graça. De repente chega um com uma sacolinha e começa tirar coisas lá de dentro, o tumulto é certo. Se são comidinhas as pessoas surtam, se são bijoux as mulheres se estapeiam, se são maquiagens é outro delírio. O ponto ápice é quando a bacana da turma se interessa pela mercadoria, o desejo alastra igual peste, todas querem. O comerciante tem que pedir 'calma pessoal, há para todos'. Esse é um fenômeno que naturalmente já despertou o interesse de profissionais de todas as áreas. O vilão é sempre o capitalismo, o consumismo desenfreado, o "ter", detesto esse TER. Pode ser também o preenchimento do vazio com mercadorias. Balela! Ao meu ver isso é da natureza humana, teorizar o comércio é teorizar a razão da existência. Não há consenso e menos ainda uma resposta. Nós gostamos de coisas. Nós gostamos de perfumes, roupas, sapatos, sofás, cortinas, batedeira de bolo, esmalte, flor artificial, guardanapo com desenhos, óculos enormes e pequenos, passadores, meias, chave de fenda com cabo de louça, cremes, maquiagens, toalhas de banho, roupas de cama, cinto, celular, canetas, bloquinhos, pandeiros, quebra-cabeça, lápis de cor, bonecas, carro, moto, enfim, nós gostamos de tudo que sabemos que existe e estamos irremediavelmente abertos para as novidades. O que seria de nós se o comerciante não fizesse a sua parte, preferível a morte em um garrote vil. Minha esperança é que um dia as pessoas dirijam olhares mais complacentes aos comerciantes. É esse infeliz que sai na intempérie para atender a essa necessidade que ruge e urge dentro da alma humana. É o comerciante que carrega peso, que tem dor na coluna, que passa a noite acordado com as promissórias a pagar, ele sim, é uma vítima e os consumidores os algozes implacáveis. Mas o melhor da história é a vingança invertida. As pessoas juram que nunca mais compram na mão de alguém por uma razão ou outra. Humilham o comerciante, viram a cara na rua, desligam o telefone quando algo lhe é oferecido. "Ali não ponho mais meus pés", essa é a palavra de ordem. Dia seguinte esse vingativo está comprando na mão de outro comerciante que é nada mais nada menos que a constatação do acerto marxista, não interessa quem é o patrão, o que interessa é a relação que se estabelece entre duas pessoas. FUI.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O HÓSPEDE

Quase todo mundo já foi hóspede de alguém, quase todo mundo já anfitrionou alguém. A relação hóspede/anfitrião, em geral, resulta na inevitável desmistificação do outro. É a devassa mútua. O hóspede vê coisas incontáveis, o anfitrião também. Ambos são vítimas do olhar do outro, da observação velada, das falsas gentilezas e quiçá da antipatia eterna. O hóspede é um ingrato por natureza, ele vai, ele precisa ir para a casa do outro, mas sente ódio. É ódio de quem não lhe fez nenhum mal. As razões? Várias, entre elas a impossibilidade de pagar um hotel e prescindir de favores. O ódio é de si mesmo, que ele, impiedosamente, projeta no anfitrião. Por outro lado, ele cria para si a patologia da exceção. Mesmo sendo consciente dos problemas inerentes à hospedagem, o hóspede se julga diferente de outros hóspedes. Ele desenvolve a retórica da auto-defesa para negar sua imprudência. Ele é discreto, passa como um fantasma, ninguém percebe sua presença. Já ouvi coisas da seguinte ordem:"todo mundo me quer como hóspede, entro e saio sem deixar vestígios". Que presunção! O fato é que tudo está na mais perfeita ordem quando toca o telefone: "posso passar uns dias aí? não se preocupe comigo, não te ocuparei, continue sua vida normal". Essa vozinha demoníaca soa como um tiro na cabeça da vítima. Em geral, vem com a pergunta, tá sol? Vem mesmo, diz o suposto anfitrião. Que alegria!!! Mentira soberana. Ele já sabe que está fadado a sofrer de desordem mental, a ter gastos inesperados, a encarar o ódio da empregada doméstica (quando há), à antipatia do filho que vai ceder a cama (quando não há quarto de hóspede, que ironia), a enfrentar ira do cachorro que passa a mijar pelos cantos da casa, a lidar com a cara de cão do marido ("essa aparição de novo"'), é o caos anunciado. Na chegada a representação de ambos é perfeita. São abraços, beijos, alegria, presentes (um queijo), as novidades. Tudo isso se resolve em meia hora. A partir daí começa a contagem regressiva para a sublime despedida. A dobradinha hóspede/anfitrião não funciona. Entre os dois há um fosso abissal, intransponível. Hóspede quer dormir, filho do anfitrião quer ouvir pagode, hóspede demora no banho, anfitrião pensa na conta da energia elétrica, hóspede pendura no telefone, anfitrião surta, hóspede come adoidado, anfitrião pensa em envenená-lo, hóspede intromete nas discussões domésticas, anfitrião implora aos filhos respeito, hóspede levanta as tampas das panelas, anfitrião baba de antipatia, hóspede atende ao telefone de cobradores, anfitrião se explica, hóspede descobre segredos, anfitrião jura vingança. E vinga Na primeira ausência do hóspede, o anfitrião chama os familiares ao telefone e relata o infortúnio, o castigo, a presença do Anjo da Morte em sua casa. Comenta todos os deslizes do hóspede, que vão da hora que levanta com sua "roupinha ordinária", a hora que deita esquecendo uma escova de dente arreganhada no banheiro. Conclama os 'chegados' a tramarem um plano para se ver livre da figura nefasta ( isso até com um grande amigo de outrora), pensa em assassinato, uma simulação de assalto, sustinhos sobrenaturais. Ou até o plano simpatia, promovendo passeios intermináveis sob o sol de canícula ou visitas a museus particulares. Tudo é válido para extenuar o intruso. Outra técnica boa para colocar o hóspede na rua é relembrar coisas horríveis de sua vida particular, melhor ainda se for a hora do jantar. "E aí? sua mãe ainda gosta de umas biritas? e aquele seu primo drag queen, fazendo sucesso? olho para você e me lembro quando seu marido te largou por outra, ainda estão juntos? têm filhos? E você continua com seu tratamento contra furúnculos nas nádegas? ops...desculpe-me Queridinha, não queria te relembrar coisas tristes". Ai, ai... Não tem jeito. O hóspede, aparentemente, não se toca, ele tem interesses maiores, não pode se levar por bobagens. Enquanto isso, macabramente, armazena a ira que ao longo da estadia é municionada barbaramente. Basta colocar os pés fora da casa que o recebeu para jogar pedras. "Que casa maldita, que filharada horrorosa, essa idiota;mora na região mais feia da cidade, comida ruim, povo sem classe, marido sem-vergonha, familiazinha de cornos, empregada suja, colchão de crina de cavalo, chuveirinho mequetrefe, credo...nunca mais essa turba ignara põe os olhos na minha adorável pessoa". Mas o tempo apaga tudo. Chega o próximo ano e a situação inverte. "Oi Linda, posso passar uns dias com você, nessa cidade dos sonhos? Ano passado eu nem pude te receber, como sua augusta pessoa merece. Você sabe que eu, nem os meninos, te incomodaremos." E começa tudo outra vez. Dever favores, dívida maldita. O pagamento em geral é feito com juros extorsivos, nele vem embutido coisas indizíveis, sem preço. Mas a vida é assim, a cada dia que passa tenho a certeza, prá lá de absoluta, que gente odeia gente. Assunto encerrado.

sábado, 11 de dezembro de 2010

SEM PALAVRAS




Há estórias que a gente conta e até Deus duvida. Essa aconteceu comigo e tenho uma testemunha. Estava eu de conversinha com minha amiga Andréia sob uma árvore de uvaia adornada com uma solitária frutinha remanescente da colheita. Nas grimpas. Aos poucos fui sentido um torpor inebriante, uma mareada salutar. Era o aroma da uvaia desemparceirada. Ele descia pelo caule fino da árvore e me envolvia sem dar lugar a qualquer contestação. O autoritarismo do aroma é como o da música, escorre pelas portas trancadas, pelas janelas cerradas, pelas grades de ferro, pelas cercas elétricas e exercem seu poder absoluto. Para livrarmos deles temos que perder alguns dos sentidos. São os donos do castelo.

A certa altura já não sabia como estava me portando com minha amiga, escutava ao longe sua voz, mas meu mundo era outro. A uvaia e aquele aroma tão peculiar me arrebataram por uns instantes da realidade. Eu me via correndo totalmente envolta no sortilégio da fruta. Por onde eu passava as pessoas eram contagiadas pelo aroma entorpecente que exalava do meu corpo. Percebi que uma paradoxal pequena multidão corria atrás de mim enlouquecida pelo meu rastro perfumado amarelo-ouro, se aroma tem cor. Delírio.

De súbito voltei a mim e continuei a conversar com minha amiga, acho que ela não notou minha saída do ar. Foi aí que aconteceu o inusitado. Passou correndo por nós um rapaz jovem. Eu, sem pensar, falei, ei moço apanha aquela fruta lá no alto para mim? Ele me olhou e de um salto sem nada dever aos felinos venceu os tímidos galhos da árvore apanhou a uvaia, desceu na mesma rapidez e me a entregou, como se a uvaia fosse uma camélia e eu a dama.

Com a uvaia na mão busquei em algum lugar dentro de mim um única palavra para dizer ao jovem. Confesso que poucas vezes as palavras me desafiam, mas naquele momento vivi onde as palavras são prescindíveis. Ele partiu e eu tenho a uvaia para sempre como o símbolo do gesto singelo imprescindível para se viver neste mundo. Andréia apenas sorriu.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

VINGANÇA A PRIORI




Há mulheres que naturalmente têm classe e glamour, são poucas. Trazem esse dom no nascimento, invejável. Elas são a expressão do fino trato, da delicadeza de espírito, do sorriso na hora certa, da voz doce e suave, das boas maneiras em todos os lugares e sentidos. No entanto, isso não lhes garante privilégios na vida, o lugar privilegiado que ocupam é o da memória, da lembrança inesquecível, da referência do charme, de serem invocadas quando as vulgares entram em cena.

Essas mulheres têm uma particularidade muito especial. Mesmo sem se progamarem para tal, elas se vingam "a priori" das vicissitudes da vida. Elas deixam sua marca indelével por onde passam, deixam saudades ainda que preteridas, são o exemplo citado da elegância do comportamento quando, reiterando, o torpe e o grosseiro pedem passagem.

Ser uma dessas mulheres é uma dádiva do divino. Quem não tem encantos inesquecíveis pela própria natureza, deve construir dentro de si estratégias comportamentais para entrar nessa abençoada tribo.

Vamos convir que é uma vingança e tal deixar de ser a rainha, mas não perder jamais a majestade. Para poucas.