sexta-feira, 9 de abril de 2010

O MAIOR INVENTO DA HUMANIDADE








A maior invenção do homem é a sacola. A sacola é a síntese da vida, ali vai de tudo um pouco. Há dias, que saio de casa com um monte de coisas incompatíveis, porém, sabiamente, do meu ponto de vista, acopladas dentro de uma coisa a qual foi convencionado dar o nome de sacola. Quem será o iluminado que teve a genialidade de inventar uma coisa que supera, e em muito, a qualquer outro invento? E olhem que a coisa já vem lá da Antiguidade. Toda vez que enfio itens díspares dentro de uma sacola gosto de me torturar pensando, e se ela não existisse? Eu certamente morreria.

Se está ameaçando chuva, preciso carregar uma sombrinha, tenho que levar um bolo para minha mãe, minha amiga me pediu dois livros emprestados, tenho que levar o ferro elétrico para consertar, preciso levar um par de sapatos rotos para dar-lhes uma sobrevida, vou devolver uma xícara de açúcar que tomei emprestado, prometi fazer uma doação para a campanha do Kilo, imaginem como poderia transportar tudo isso de uma única vez na ausência de uma  ou duas sacolas? Foi daí que comecei a prestar atenção nas coisas que usamos no cotidiano e as tratamos como se elas tivessem aparecido no mundo como por encanto. No entanto, elas são geniais e demandaram a imaginação e a dedicação de um nobre e não consagrado criador : um anônimo. A sacola é uma dessas invenções, deu até origem a uma das mais dignas profissões, a sacolagem e daí as sacoleiras, invejável atividade comercial. A sacola é a celebração máxima da vida literalmente carregada. Quem a inventou tem o meu reconhecimento póstumo.

Obsessiva por tão “retardatária” percepção passei a dar um tratamento vip, diferenciado, meigo, humano e solidário às sacolas. Olho para elas com amor sincero e eterno. Sou escrava dessas “enfia tudo em mim”. Há de todos os tipos e para todos os gostos. Algumas são intrépidas e arrebentam na hora H. Nós, ingratos, as desqualificamos e as chamamos de ordinárias. Mas, é coisa do momento, o arrependimento é imediato quando vem a prima socolilda substituir a “de segunda classe”. Elas são imprescindíveis em todas as situações. Fazem parte da família, do comércio, da vida dos catadores de papel, do sexo seguro (as camisinhas são sacolinhas ajustáveis nos ínfimos e nos desmesurados) do “welfare state”, elas são simplesmente a seiva da vida armazenada. Sacolas, minhas queridas, eu as amo. Vocês são a essência da minha vida, vocês são o símbolo da discrição dos homens, vocês são amigas fidelíssimas, dentro de vocês está amontoado um arsenal de segredos. No entanto, ninguém lhes dá o amor do qual são merecedoras. Doravante, vocês têm em mim a maior admiradora, defendê-las-ei até que a morte nos separe, isso se não for vítima de um esquartejamento e meus restos mortais  serem transportados dentro de vocês. Unidas na eternidade.

Viagens, ninguém nesse mundo se desloca de um lugar para outro sem levar uma sacola, óbvio que a coisa se desdobrou e virou mala, maleta, valise, não importa, todas são derivadas da nobre e para sempre nossa, “sacola”. O caos estaria formado se ao fazer o “check in” em um aeroporto tivéssemos que colocar todos o itens, um a um, na esteira, e ficássemos sujeitos aos olhares curiosos dos outros passageiros, logo, a sacola e suas variáveis nada mais são que caixinhas de segredos ou vergonhas. São elas que nos resguardam do que não somos e aparentamos ser, são elas que não deixam que a humanidade saiba que nem sempre a nossa roupa de baixo é condizente com a de cima, que as meias, no mais das vezes, estão gastas e têm os elásticos relaxados, que as nossas escovas de dentes são arreganhadas, que nossas camisolas e pijamas são trapos e nós as assombrações noturnas (causa do insucesso de muitos casamentos).

Elas são sempre solidárias com as faltas de educação nas festas, quando as enchemos dos restos festa justificada pela idéia de que fizemos um vantajão, são elas que nos protegem contra os julgadores que gostam de saber que livro compramos ou que video alugamos nas locadoras, são elas também que não deixam o vizinho perceber que quando descemos elegantemente pelo elevador, estamos com um potinho lacrado para levar ao laboratório para descobrir o tipo de vermes que damos guarida. Para tal ocasião usamos uma sacolinha dourada dos chocolates Godiva. São essas grandes amigas que nos economizam o tempo, levando de uma paulada só um montão de coisas, que de outra feita teriam que ser carregadas atabalhoadamente mundo afora.

Para que as sacolas sejam reconhecidas oficialmente como a peça número um da vida, pensemos em fazer uma compra no supermercado prescindindo dessa genial invenção. Bolsas não existem, é claro que elas não passam de sacolas sofisticadas. Então você leva nas mãos a lista das compras, a carteira, o cheque, seus documentos pessoais e, no caso das mulheres, um batom e um pente. Depois da compra feita começaria o inferno.

O saco de arroz, feijão, açúcar, sal, trigo e sabão em pó, iriam empilhadinhos em um dos braços. Debaixo do outro braço, os detergentes, limpa vidros, ceras para brilhar onde pisamos, (obsessão); entre os dedos de uma mão iriam os frios fatiados, já os sabonetes, desodorantes, pastas de dente e fio dental caberiam dentro do sutiã, que não passa de uma sacola de valor inestimável para nós, as mulheres, que lutamos contra a queda livre da sobreloja. Os frangos e as carnes, naturalmente, embrulhados, iriam amarrados na cintura, os rolos de papel higiênico estrategicamente enfiados no cabo de uma vassoura comprada para esse fim, essa, aliás, enfiadinha no canto do sovaco. Amarrados sobre os pés jazeriam duas latas de óleo, nas pernas os biscoitos, nas costas poderíamos prender com muito jeito os congelados (pneumonia certa), sobre os ombros estar a manteiga de um lado, e o vidro de requeijão de outro.

 Na cabeça, com jeitinho, daria pra equilibrar sobre uma peneira as frutas e os legumes. No pescoço? Ah este seria perfeito para pendurar os apetrechos da feijoada. O bacalhau amarrado na presilha da calça (lugar pouco estratégico, mas útil). A outra mão estaria livre para cumprimentar algum amigo que porventura estivesse no mesmo ponto de espera do ônibus. Ah, me esqueci, não tendo lugar para levar o cheiro-verde, pendurá-los-ia nas orelhas, e o jornal, encomendado pelo marido leitor entre os dentes, à maneira das mordaças.

Meu reino por uma, só uma sacola. Não há vida possível sem elas.

SUGESTÃO: as sacolas merecem um busto na Praça dos Poderes em Brasília, com uma bandeira do Brasil hasteada ao lado, ainda que seja a meio pau. Um dia do ano será feriado em homenagem à augusta sacola e nesse dia, os Dragões da Independência, unidade mais elegante do Exército Brasileiro, lhes renderá homenagem com a tropa perfilada cantando o Hino Nacional.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

YASMIM, A MOÇA DO NOME PERFUMADO VINGANÇA IV



Jovem, muito jovem, tímida no falar e no sorrir, Yasmim, a menina de nome perfumado, era a graça celestial da pequena cidade litorânea conhecida como Mirada da Sereia. Esse exótico nome atraía levas de turistas, fervorosos bandeirantes a procura do paraíso terreal. Yasmim, a menina de nome perfumado, trabalhava em uma pequena tenda à beira mar, onde seu pai vendia bebidas e peixes para os estrangeiros. Yasmim era a escrava do prazer dos banhistas, em época de temporada os dias corriam sob seus pés. Yasmim respirava porque esse ato não tomava tempo, no mais era só trabalho, trabalho sem recompensa ou reconhecimento.

Quando a menina com nome de flor completou 13 anos, foi covardemente violentada pelo cunhado, o noivo de sua irmã Mirtes. Seu Matias era um homem rude, já adentrado nos cinquenta anos, solteiro convicto, avesso a qualquer compromisso que colocasse em risco à integridade de suas propriedades. O famigerado Matias era o homem rico da cidade. Um dia ele resolveu se casar, precisava de uma dama de honra na virada da vida. Mirtes, a feiosa irmã de Yasmim, foi a eleita pelo vestuto homem, para ser sua esposa abençoada pela Santa Madre Igreja Católica, Apostólica e Romana. Mirtes seria a princesa consorte do pequeno reino do anormal Matias, essa glória levaria para o túmulo. Glória inglória e nefasta.

Ameaçar a realização dessa abençoada união era uma idéia que Yasmim não tinha quando contou aterrorizada à mãe o sucedido. Dona Madalena, mulher de parcos recursos mentais, tomada pelo temor que as coisas desandassem para a família, caso o casamento não acontecesse, excomungou Yasmim. Deu lhe uma bofetada na cara, acusou-
a de menininha sem-vergonha, invejosa da sorte da irmã e provocadora de homens. Logo depois foi a vez do pai, espancou a menina sem piedade e jurou-lhe de morte se revelasse a alguém sua fraqueza tentando, como o diabo, o pacato sr. Matias, "seu honrado futuro genro". Assim, na feliz idade de 13 anos, Yasmim foi apresentada a uma das várias facetas do mundo real que até então desconhecia: as famílias guardam segredos, os mais hediondos e miseráveis, pelo bem de todos. Vivendo e aprendendo. Yasmim aprendeu e silenciou-se. Aqui residia o perigo.

Depois de saciar seu lado animal, o famigerado noivo foi até à delegacia e contou a Jeferson, o delegado, as travessuras de Yasmim e a impossibilidade de se ver livre do assédio da pequena demônia. Informação melhor não poderia obter o amaldiçoado delegado que exercia o poder na cidade através das mais inimagináveis arbitrariedades e covardias. Jeferson era temido e odiado pela população de Mirada da Sereia. Depois de longa conversa com o proprietário da cidade, revoltado com o impropério que acabava de tomar conhecimento, prometeu-lhe proteção da fúria da menina de nome perfumado e corpo tomado por satanás. Essa mesma atitude teve Dom Mariano, o santo padre que por motivos inexplicados já tinha passado por onze paróquias desde que recebeu os votos sagrados. Yasmim tinha que ser exorcizada e ele seria o exorcista.

Depois daquele dia que melhor seria não ter vivido, Yasmim, viveria seu pequeno Vietnã. Seu pai, o Murilão do Peixe, como era conhecido na redondeza, mudou o comportamento com a menina de nome perfumado. Olhava para ela com ares de luxúria e nunca deixava de fazer um comentário obsceno quando estava a sós com a filha. Passava-lhe a mão no rosto de maneira tal que Yasmim arrepiava como um ouriço tamanho o pavor pelo odiado progenitor. O delegado furtando-se às obrigações de fazer cumprir a lei e proteger a menor, sorria com sua dentuça amarelada para Yasmim que não entendia a simpatia súbita. Dom Mariano, o psicopata de batina, só faltou usar um fórceps para arrancar de Yasmim no confessionário os detalhes do dia do sinistro. Yasmim nada falava, ela era inocente, não era a autora do pecado. E o último personagem que surgiu para infernizar a vida da menina ultrajada e indefesa foi Leopoldo, seu único irmão. Este potencializou o desejo latente que tinha por sua irmã caçula em forma de passadas de mão desavisadas e encostadas lascivas no corpo frágil de Yasmim.

O tempo passou e Yasmim tornou-se mulher. Desde o dia do acontecido, as insinuações e perversões daqueles homens tornaram-se um ataque direto e implacável. Se no princípio Yasmim menina, a do nome perfumado, resistiu lutando bravamente contra os selvagens, Yasmim moça, cedeu. Alternava entre os cinco amantes, o provecto sr. Matias, o temido delegado Jeferson, o padre Mariano PP (pecado e perdão), o lesado Murilão Peixe e o mentecápito Leopoldo. Ela sabia como agradá-los, com o riso mais insinuante e o andar de ninfeta na primavera, Yasmim os levava ao delírio, para cada um tinha um artifício, um jogo de pélvis particular. Em pouco tempo a vítima foi se transformando em algoz, Yasmim os subjugou, um a um, seu perfume exalava a cada vez que seu nome era pronunciado. Ela lhes inspirava um fanatismo religioso, impossível de ser superado. Yasmim era o néctar do abominável quinteto. Eles, os brutos, a amavam. Há diferentes formas de amor,inequivocamente.

Um belo dia, chegou em Mirada da Sereia um fotógrafo suiço. O homem era um pedaço de Jesus Cristo, alto, olhos cor de mel e do próprio cabelo, sorriso discreto, sedutor, voz mansa e baixa, corpo na exata medida do pecado. Era a encarnação do conceito de beleza universal, sem lugar para polêmicas. Ao conhecer Yasmim, a filha do dono da barraca de peixes, por ela se encantou irreversivelmente. Esqueceu se dos pais, das glamourosas esquiadas nos Alpes no mês de fevereiro e da pátria. Yasmim, só Yasmim, a moça do nome perfumado, existia para ele. Ali, na areia, à luz do céu e com o aval do Pai, começou o mais louco idílio amoroso já vivido na pequena cidade e num raio de mil quilometros de todos os pontos cardeais. O estrangeiro amou Yasmim como só se ama uma vez na vida. Ensinou à moça do nome perfumado o mundo e a manejar a complicada máquina fotográfica. Yasmim aprendeu tudo, o mundo e a complicada máquina fotográfica.

Com a máquina à mão Yasmim passou a tirar fotos, fotos eróticas para delírio de seus amantes. Eles se submetiam aos sortilégios da menina e também aos seus caprichos e fantasias sexuais. Eram muitas as fantasias de Yasmim, fantasias de uma mente tomada pelo ódio de quem finalmente conheceu o amor. Yasmim amava o estrangeiro.

Às vésperas do carnaval a pacata cidade Mirada da Sereia amanheceu surpreendida por um grande outdoor na praça, bem defronte à Matriz de Nossa Senhora dos Milagres. Ali estava anunciada a grande surpresa para a festa momesca, um novo bloco sairía no desfile programado para o domingo à noite. Mas o bloco tinha urgência, saiu no domingo de manhã em forma de grandes estandartes cuidadosamente colocados em pontos estratégicos da cidade. Com o conluio do estrangeiro, já sabedor das barbaridades que vinha sofrendo há anos a moça de nome perfumado, organizou as fotos à perfeição e a homenagem foi feita.

No adro da igreja estava o presente "para as beatas da cidade". Dom Mariano, com a batina aberta exibia um diminuto orgão rezador em posição de resignação. Trazia preso no alto da cabeça uma fruteira à la Carmem Miranda, as mãos postas, os olhos se entreolhando com a mesma rigidez que escutava os pecados horríveis do moradores da cidade. Nos pés calçava uma meia curta branca e um sapatinho 'boneca' preto.

Em frente à delagacia a homenagem foi rendida aos "homens covardes da cidade". O delegado Jeferson vestido de coelhinha da Play Boy na cor rosé, os joelhos ligeiramente flexionados cobertos pelas mãos cabeludas com as unhas pintadas de vermelho. A boca adentrada na cavidade oral, sua dentadura? Sabe Deus onde estava na hora de tão emocionante festinha. Nos pés calçava uma meia curta branca e um sapatinho 'boneca' preto.

Na esquina da casa de Seu Matias, "Mirtes, a feiosa" recebeu seu presente de carnaval. O poderoso proprietário da cidade aparecia de perfil vestidinho de mulher grávida, com uns 7 ou 8 meses. A cabeça virada para trás olhando com um certo sorriso as nádegas rendidas e em pêlo, o vestido não tinha costas. Nos pés calçava uma meia curta branca e um sapatinho 'boneca' preto.

Na porta da casa de Dona Madalena, "a mamãezinha do coração" apareciam abraçados em um grande outdoor os dois machões da família, Murilão do Peixe e Leopoldo, ambos nus olhando lascivamente para o sexo do outro. Nos pés calçavam uma meia curta branca e um sapatinho 'boneca' preto.

E para o deleite da cidade os 3 estandartes e o grande outdoor apareciam juntos em frente à prefeitura. Uma faixa negra enorme os envolvia com os dizeres: "Yasmim deseja um alegre carnaval aos amorais habitantes da maldita cidade de Mirada das Sereias com o lançamento do Bloco dos Sapatinhos Pretos"

Ninguém nunca mais pôs os olhos em Yasmim, os festejos do carnaval foram suspendidos e Mirada da Sereia entristeceu, seus segredos foram revelados.

A vingança pode ser feita com um simples clic, o clic detonador.

sábado, 27 de março de 2010

TUDO É UMA QUESTÃO DO TEMPO DO VERBO

Comigo ninguém faz gracinhas, meus limites eu traço, eu não levo desaforos para casa, ninguém me desrespeita, homem não mete a cara comigo, em mim ninguém põe a mão, meu nome não anda por aí na boca de qualquer, ninguém grita comigo. Frases como essas são infindáveis, escuto-as todos os dias, mas todos os dias mesmo. As pessoas querem ser espantalhos (vide "O Espantalho" neste Blog) mas é impossível, não há como por limites nem antes nem depois dos insultos, o sinistro já aconteceu e há de se dormir com essa. O ponto nevrálgico da questão, ao meu ver, é o tempo do verbo utilizado. Melhor seria usar o futuro do presente que é um tempo verbal que se refere ao tempo do 'prevenir-se', do 'precaver-se'. É só fazer uma irrisória mudança e a frase torna-se verdadeira: comigo ninguém fará gracinhas, meus limites eu imporei, eu não levarei desaforos para casa, ninguém me desrespeitará, homem não meterá as caras comigo, em mim ninguém porá as mãos, meu nome não andará por aí na boca de qualquer um e vai por aí. Conversa fiada, não há como evitar, todo mundo leva desaforo prá casa. É só uma questão de aceitar que já levou, leva e levará. Se não gostar, fique sem gostar e pronto. Meu conselho: ouvidos de mercador, afinal já é sabido que "os cães ladram e a caravana passa". E lá vou eu.

quinta-feira, 25 de março de 2010

UMA MORRIDINHA, SÓ UMA VEZ POR ANO







Deveria funcionar assim, amanhã vou dar uma morridinha por um ano. Acertado. Seria uma redenção, já imaginaram desviver por um ano? Estar fora desse mundo um ano a cada 10 anos, à moda do ano sabático, que felicidade! Teria me visto livre de inúmeros finais de semanas, de conversas intermináveis, de festinhas de aniversário, de reuniões de trabalho, de contas inumeráveis, de chateações do dia a dia, de velórios, de casamentos, de blitz no trânsito, de problemas de saúde, de viver sem tréguas.

E minhas meninas, meus amigos, meus alunos, meu amores? Por seguro estarão felizes com minha ausência, das minhas aulas, das minhas conversas e conversinhas e mais do que isso, de algo que não sei e acho que não preciso saber. O que sei já é o suficiente, dá para rir e para chorar. Um detalhe, o que me fez chorar, jamais me fará rir, isso é fato.

Oh Deus dê-me a benção de uma morridinha. Reivindico também o direito de não voltar ou voltar só para homenagear o poeta, " Minha terra tem palmeiras onde cantam sabiás. Não permita Deus que eu morra sem que volte para lá".

Nesse retorno eu serei a mesma, ainda que com a consciência que o outro é perdido, que as pessoas são as pessoas como elas são e que o mundo gira mais rápido do que se pensa. Isso vou levar para o túmulo quando o morrer e não em uma simples morridinha. Quem ler entenderá e me fará eco.

Há tempos extensos de minha vida que não vivi, eu estava morta. Quem sabe essa morridinha já vinha acontecendo de 10 em 10 anos e por pura falta de atenção eu não a considerei a grande benção? Sim, depois desses períodos a vida foi sempre muito, muito melhor. Que cegueira a minha!

domingo, 7 de março de 2010

ALGUMAS MENTIRAS UNIVERSAIS: VINGANÇA III









Tenho um amante...sou feliz! Mentira atlética. Esse é o mais amaldiçoado equívoco que ainda ilude uma grande porcentagem da humanidade carente. Ter um amante é o solene início da operação fio da navalha e o triste fim da paz de espírito. Não que eu advogue pela fidelidade irrepreensível, pelo olhar destituído do desejo e pela ausência da paixão súbita e suicida. Impossível, seria negar a marca humana e o renascer à toda prova. Mas essa aparente felicidade materializada por doses altíssimas de adrenalina que espalham por todas células do corpo, é o primeiro sintoma da demonização do cobiçado éden. Em um espaço de tempo infinitamente menor que a velocidade da luz, o sonho torna-se um pesadelo, dos piores. Não existe amantes que vivam em paz, eles estão permanentemente assombrados pelo terror do flagrante. O mundo dos "homens de bem" conspira contra os apaixonados fora dos marcos institucionais do casamento. Uma vez comprometido com alguém, acabou a alegria de viver, acabou a graça.

Perceberam que o caso é sem saída? Poucos são os eleitos para viver uma paixão eterna com o cônjuge oficial até a morte. As alternativas possíveis para atenuar o suplício do casamento sem amor são catalogadas no código penal como criminosas, sem direito à habbeas corpus ou pagamento de fiança. Nesse ponto da tragédia a questão sai do campo da emoção e entra na implacável esfera da lei. Fez? Tem que pagar e caro. Por isso ter amantes nessa sociedade monogâmica é fria, é caminhar de mãos dadas com a punição, mais cedo ou mais tarde.

Solução: não se prenda à ninguém, não jure fidelidade, não assine papéis, mas se cair na armadilha da paixão, reze muito, Deus descerá dos céus para te proteger. É mais fácil se livrar de um grande amor que carregar o estigma de traidor. Recorrendo à história para exemplificar, cito: "ao traidor a execração em praça pública". A coisa é tão absurda e canalha, que em geral, aqueles que punem os traidores, saem correndo dos tribunais para cairem nos braços dos amantes. Nesse momento de idílio amoroso se esquecem que em breve serão a bola da vez.

Mas tem um segredinho, se você quiser desejar mal a alguém, não pense duas vêzes, deseje-lhe uma paixão arretada por uma pessoa casada e que ela também seja casada. É a danação no inferno, é tornar-lhe a vida impossível. É levantar da cama com sono, é sair da mesa com fome, é beber água e a sede não passar, é a melancolia permanente, é o mundo ficar pequeno, é a festa sem música é a lágrima espalhada por todo o corpo, é dos males o pior. E como tiro de misericórdia deseje a essa alma em desgraça que a paixão seja fugaz, para o outro.

Uma paixão arrebatadora, das vinganças a mais eficaz.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

SEM PERDÃO









NAVIO NEGREIRO CASTRO ALVES
(1847-1871)

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.


II


Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...


III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!


IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...


V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
Adeus, ó choça do monte,
Adeus, palmeiras da fonte!...
Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...


VI


Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Danielzinho, meu amor.









Hoje voltando para Madri de Alcalá de Henares, terra de Cervantes, sentou ao meu lado no trem um rapaz, igual a você. Seria injusta dizendo que é igual, igual a você não existe Daniel, você é impar. Galanteios à parte, ele me perguntou bem baixinho, esse trem vai direto para Madri? Outra vez, igual a você, falando baixo e discretamente. Ele usava um óculos, igual ao seu. Fiquei olhando para ele, sem nenhum constrangimento, era você que eu via, pensava, saudade de Danielzinho meu. Era assim que todos falavam, Danielzinho seu passou por aqui. E assim eu perguntava, vocês viram Danielzinho meu? Sim, meu mais querido aluno em 30 anos de UFMG.

De repente, para não negar à semelhança, o rapaz tirou um livro da mochila e começou a ler, pensei, esse cara é um farsante, pensa que é Danielzinho. A partir daí só queria lembrar de você, na sala de aula, pelos corredores da FAFICH, nas tertúlias das tardes que passou trabalhando comigo lá em casa, lembra-se? Sempre falando baixinho, sempre com um livro na mão, sempre amável, sempre disposto a continuar trabalhando.

Pois é, meu Querido, não posso deixar de publicizar a enorme admiração que tenho por você, estudante exemplar, pessoa inequivocamente impar, reitero. Dizem que a gente tem que falar tudo que sente, sabe-se lá o que vem pela frente? Já imaginou uma confissão dessas depois de meu óbito? Você teria medo. Então vai agora, Danielzinho meu aluno querido, meu amor da História. Em breve me dirão, Dr. Daniel passou por aqui....o tempo, esse não para. Te amo Daniel.