domingo, 16 de maio de 2010

SAIR DO MUNDO IV


Hora de levantar, olhei por baixo das cadeiras e não ví nenhum pézinho, imagine alguém aparecendo de súbito na sua frente em pleno início da evasão do ócio. Comecei a tarefa de “surgir” com prudência, cada movimento era pensado e acompanhado por alguns segundos de total imobilidade. Até que me assentasse na cadeira com a dignidade dos que ali estavam legalmente, tive que exercer a prática do contorcionismo, tudo doía. Começando pela cabeça, era fome, o pescoço, foi o travesseiro, os braços, sem dúvida dormí sobre ambos, a coluna, desencarrilhada, as pernas, dormentes, e os pés, acho que passaram a noite em posição de morto, cada tentativa de aprumo eram fincadas distribuidas pelos quatro pontos cardeais desse trapo, eu. Depois de “trabalhar”, como dizem os alternativos, o relax, notei que o filme era outro, tinha tempo para assistir mas antes ia ao banho de pia, um suplício.

Discretamente sentei ao lado de um casal jovem. A donzela tinha nas mãos um saco de pipocas, um copo de Coca e uma barrinha de chocolate. O rapaz era educadinho mas a mocinha tanto tagarelava como comia as pipocas às mãozadas, enchia a boca e bochechava e gargarechava com a pretinha, coisa de irar qualquer um. O fato é que o namorado ficou sexualmente atraído pela grulhenta impolida, começou a bolinar a bichinha e ela, resistente à princípio, cedeu à popica, desprezou as pipocas, largou de lado o saco já pelas metades, e se esqueceu da pretinha babujada. Foi a minha salvação, tomei um lauto café da manhã, o chocolate foi a sobremesa, simplesmente opíparo. Aí bateu-me a dúvida, mudar de lugar para não ser acusada de roubos de pipocas e Coca usada ou ver até onde ia aquela pouca vergonhagem. Decidi pela segunda opção, o filme ficaria para depois, tinha tempo. Fiquei quietinha, mas de olho.

O trem pegou fogo, a mocinha não era desse mundo, beijos daqueles de tirar o ar eram fichinha, êle, o rapaz, que no começo pareceu-me o danado, não controlava a situação que êle mesmo criou. No que o aparente entrão arriscou a mão meio trêmula na sobreloja da quentona, ela ordenou, pega firme cara e com a mão esquerda segurou o orgão assustado e até arrependido do coitado, grande provocador da fuxicação. Pelo movimento do cara tentando puxar o corpo prá trás saquei logo que a moça foi na bruta. Inebriada pelo desejo que lhe ardia sem tréguas a moça manteve a força, só isso explica o sussurro do infeliz, larrrga diaba, isso aí não é iôiô não. O pior é que quando êle a abraçou a carinha do inexperiente sacana ficou de frente para meu lado direito, foi dureza ver tudo sem virar o rosto. Entretanto, nessa hora que era de dor, dei fôrça, virei levemente o rosto, também desfigurado pela loucura da qual era testemunha ocular e em solidariedade fiz o sinal da Cruz. Envergonhado, Patrício, esse era seu nome, apertou os olhos e repetiu, larrrga. Acho que era um moço de família. Foi cumprir a obrigação de tirar um sarro no escuro e caiu na armadilha de uma mulher guiada pelo príncipio da volúpia. Eu de olho. A coisa ia esquentar porque aquela não era mulher de deixar barato. Êle, o culpado de tudo, que ao invés de deixá-la comer furiosamente as inofensivas pipocas e conversar em pleno filme, quis ser “gentil”, mostrar o quão romântico e macho era, tomou.

Não sei se por necessidade de apoio ou de alguém que no pós-sarro rezasse por sua alma, Patrício tomou-me como conselheira através de um código que criamos na hora. Enquanto Ronilda, (até disso eu já tinha conhecimento porque uma hora êle falou com ela, você é linda Ronildinha, eu pensei, que falta de gosto seu bicha) tentava abrir o fecho da calça de Patrício, êle incomodado olhava prá trás, pros lados, mas cutuquei-lhe o braço e fiz um sinal de “barra limpa”, vai firme cara porque hoje é hoje. Nisso ela abaixou e pôs a boca onde o capeta tava solto, acho que a meio pau, Patrício olhou prá mim e eu, a cúmplice fiz aquele olhar de “fazer o quê?” Patrício chegou ao climax e que vexame, de mãos dadas comigo. Tudo terminado, eu, extenuada pela imoralidade alheia, olhei para o gozador, sorrí e pensei, filho da puta. Mudei de lugar, precisava dormir. Voltei para o final das fileiras, fiz minha caminha e até a próxima. Acordei com um pézão na minha cara. Odor para exportação. (Continua no SAIR do MUNDO V)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

SAIR DO MUNDO III


A véinha, de inha não tinha nada. Ela era esquálida mas grande, tão grande que estava sentada com as pernas abertas porque as próprias não cabiam no espaço entre as fileiras. O cabelo também era grande e solto, coisa do outro mundo. Ainda assustada com a minha brusca chegada, a anciã fêz um bico torto com a boca e me atravessou com um olhar satânico que me valeu uma fincada enviezada no estômago e uma lágrima no canto do olho esquerdo que desceu cara abaixo para ir ficar no balança mais não cai no lóbulo da orelha. A bicha devia estar adentrada nos oitenta e só Deus sabia o que a esgurida estava fazendo alí. Tinha nas mãos um saco de um quilo de biscoito de polvilho que devorava com a sofreguidão dos recém apresentados à comida. Dentro da boca os biscoitos viravam chocalhos, eram barulhos incompatíveis com a apresentação física do biscuitim, eu, por mais que tentasse não conseguia prestar atenção na película. A ruminante falava sózinha, xingava os artistas, blasfemava contra Deus e os homens, amaldiçoava a nora que, segundo ela, era a perdição do filho e me dava cotoveladas que se não me safasse com a habilidade que o fiz, não estaria aqui prá contar a história. De repente, na maior falta de respeito a provecta acendeu um cigarro e mediante meu olhar indignado retrucou, fala alguma coisa que te meto a mão no meio do focinho, foi o bastante, afinei. A devedora de cemitério era das violentas. Comecei a amaldiçoar aquele lugar que fui à busca da paz. Resolvi mudar de cadeira quando notei que a desumana já fumada estava meio cochilando. Levantei devagarzinho esperando um bote caso a despertasse, mas a véinha já estava mascando o sono e as pernas, de tão compridas, escancararam. Cena que até Deus duvida..

Até então eu ainda não tinha entendido direito o filme sei que era uma estória de dois irmãos que não tinham sapatos ou perderam, sei lá, o fato é que foram duas horas de troca infinda de sapatos para que os pais não descobrissem que um tinha perdido o sapato do outro. Eu sei que aquilo me pôs neurada, imagine que a essa altura da vida cheia de cataclismas e outras tragédias inevitáveis pelos homens, um par de sapatos pode alterar tão drasticamente a vida de duas crianças. Essa era a minha história apresentada na forma cinematográfica. Coisas irrelevantes assumirem proporções gigantescas. Fiquei com ódio dos pais dos meninos que poderiam até matá-los se soubessem da enorme perda, do professor que maltratava o menino quando êle chegava atrasado por causa da amaldiçoada troca de sapatos, e sobretudo dos meninos que não revelavam o grande segredo e viviam o calvário do revezamento de um par de tênis que ora calçava o menino, ora a menina. O sofrimento era enorme para ambos porque o que sobrava em um folgava no outro. Os meninos eram eu. O inferno por nada.

Fui para a última fileira e ali refestelei na cadeira, afinal a maratona tinha sido dureza. O filme estava menos palpitante do que a platéia, eu, exaurida pelas emoções, sentia vontade de dormir, sabe lá o que é enfrentar em menos de duas horas uma jovem desvairada e uma velhinha transgressora? Caí no sono do mesmo jeito que as pessoas dormem nos aviões, todos durinhos com a boca aberta em forma de O, tal e qual os meninos cantores de Viena. Quando acordei já estava “escuro”, o filme parecia no meio, não sei e na platéia havia várias pessoas, outras. Percebi que a primeira sessão já tinha acabado. Tentei olhar as horas mas não conseguia enxergar até que me lembrei de uma lanterninha que Bebeth, minha amiga, me deu, sou grata a ela e vejam bem, na época achei o presentinho meio fraco, mas naquela hora valia ouro, eram nove e quarenta da noite. Fui à casinha, lavei o rosto e voltei para procurar um lugar para dormir antes de terminar a sessão. Se o lanterninha me visse ia me mandar sair e eu já estava decidida a pernoitar no recinto. Fui prá lateral da sala, na penúltima fileira e devargazinho deitei no chão. O travesseiro foi minha muda de roupa. Deixaria o banho para o dia seguinte. Alí começou meu exílio voluntário. Passaria uma semana dentro do cinema. Eu precisava disso, já não aguentava tanta pressão, perguntas que não tinham respostas, afinal estava vivendo uma vida que eu não queria para o pior inimigo, só para não fugir à tradição da maxima. Já deitadinha sentia que aquela seria uma noite de liberdade. Nem bem me acomodei sentí a transição do estado de leve torpor ao sono profundo. Não deu outra. Acordei no escuro sem saber onde estava, imediatamente me lembrei da minha nova morada, dormí mais um tempo indefinido até que fui acordada com a conversa de duas mulheres que deveriam ser as faxineiras do sala de cinema. Sacaneada com a invasão domiciliar tive algumas idéias para assustá-las mas preferí dormir mais um pouco, é lógico que se estavam começando a varrer as primeiras fileiras, minha casa seria deixada para o dia seguinte. Quando acordei novamente com vozes percebí que estava começando a sessão, faziam 24 horas que eu estava alí, relegada ao ostracismo ...felicíssima.  (continua no Sair do Mundo IV)

SAIR DO MUNDO II








Uma mulher que eu já havia visto na fila para comprar o ingresso, com seus vinte poucos anos, resolveu mudar de lugar e sentou-se exatamente do meu lado, bem agarradinha. A danada parecia egressa de algum hospício da cidade. Olhava para a tela com olhos desorbitados para que dali não lhe escapasse nada, eu, hirta de pavor, também olhava para a tela, mas não via nada, minha única preocupação era o momento do ataque da louca. Passei a sofrer de uma taquicardia sonorizada incontrolável. Bate baixo coração era a única ordem que eu conseguia proferir para o descontrolado, mas o próprio, ao invés de baixar o volume, passou a batucar dentro do meu peito. Simultaneamente fui atacada por uma coceira no braço, daquelas que a gente tem vontade de cravar as unhas e arrancar um pedaço, mas mexer como? O medo da dona era algo tão intenso, que o leve suor que sentí no começo passou a um hircismo jamais sentido em todo o continente africano. Pensei, agora ela me mata, com um cheiro desses, não há quem mereça viver. Preparada para o rito de passagem, sentí um dedinho gelado encostar no meu anti-braço e afundar no tecido que de adiposo se tornou poroso, sentia o toque no osso. Essa intimidade mexeu com meus bríos, fiquei possuída e virei-me rapidamente para o lado “tipo passar sustinho”. Deparei-me com um sorriso besta afivelado na boca e um olhar adefuntado. Trêmula, sorri para a desvairada e proferi um simpático oi, atitude pusilânime sem precedentes na história. Da total paralização facial anterior, as narinas da maníaca do cinema se abriam e fechavam à moda de um touro na arena, o ataque se anunciava inevitável. Qual nada. A aparição feminina enebriada pela odor do meu sovaco, azarolhou-se, deu um zumbido e com o riso congelado e as narinas contraídas para o centro, ficou paralisada. Aproveitei aquela paralisia temporária e saí dalí pulando por sobre as cadeiras até que estatelei ao lado da outra mulher. Era uma velhinha grandona e magra. (continua no Sair do Mundo III)

SAIR DO MUNDO I ( Série I II III IV)








Hoje ninguém me acha nessa cidade, vou tirar o bloco da rua. Com essa idéia fixa na cabeça peguei uma muda de roupa, um sabonete e bye bye. Com o pé na rua comecei a pensar, e agora? Para onde vou? Quero desaparecer do mundo, não suporto nada, nem a respiração humana. Quero desaparecer. Se isso só é possível com o suicídio, resolvi, como paliativo, passar umas horas no anonimato total, pequena saída. Entrei no cinema. Eram duas da tarde. Tudo escuro, que felicidade meu Deus. Àquela hora só tinham oito pessoas na platéia. Sentei em lugar discreto e sem saber qual era o filme ou os artistas. Comecei a observar os meus companheiros de deleite em hora oficial de trabalho. Dessas oito pessoas, não sei se aposentadas, endividadas ou sem o que fazer, seis eram homens e duas mulheres.

Os homens eram todos do tipo pouco apreciáveis à exceção de um que parecia estudante gazeteando aula. Cada um se assentou em uma fila ajeitando e deitando o corpo, ora suspirando, ora tossindo, ora bocejando, o relax era total. Nisso um dos homens deu um bocejo chorado e gemido. Eu sempre tive antipatias de quem emite sons eróticos no pós-bocejo, mas noto que essa característica é mais comum que imaginava. O pior é que o raio do “abrir boca” pega e aí, de um bocejo único, seguiram mais oito formando uma pequena orquestra de câmara sem maestro. Um deles não conseguia completar o prazer do bocejo e passou os primeiros dois minutos de propaganda que antecedem o filme, na luta entre a boca escancarada e os espasmos do bocejo frustrado. O som da puxada de ar desse cidadão alterou a respiração de todos nós, eram bufadas e estrebuchos de todo lado. Quando o incompetente conseguiu completar o bocejo a contento, soltou um uivo tão agudo que um dos “cinéfilos”, quase sufocado, vociferou, com voz esganiçada quer matar a gente ô tísico? O infeliz, agora outro homem, com as forças recuperadas pelo antológico e cinematográfico bocejo respondeu um sonoro vai à merda seguido de um sem-educação acompanhado de um é a mãe. Comecei a gostar, a tarde seria animada, a turma era das quentes. Dei uma olhada geral e saquei, aqui só tem gente “sem berço”. Detesto essa metáfora. Até parece que ter berço é sinal de estirpe e boas maneiras. Conheço gente nascida em berço de ouro e nem por isso.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O SONHO









Há alguns dias eu sonhei com você. Foi um sonho incomum porquê foi um sonho construído. Sabe aquela velha mania de sonhar com os olhos abertos? Depois com o coração apertadinho dormi e o sonho virou sonho de verdade. O notável não foi o delírio onírico mas, pelo contrário, o forte desejo, na inconsciência do sono de que o sonho fosse a realidade. O que posso dizer é que ainda ontem, pensei, fora eu uma poetisa comporia versos da extensão dos Lusíadas desqualificando aqueles que anistiam a paixão e não dão transparência à perturbação incontrolável que lhes vai na alma. São todos gente de luz opaca.

Talvez o pecado esteja mais no fato de que todas as oblações deveriam ser feitas somente a Deus, não aos homens. Daí o castigo. Aquele que permite que seus sentimentos fluam e ainda pior, os confessa, perde tudo, sobretudo a paz. A esses infelizes românticos os dias não lhes são impunes, nunca mais. Nas abençoadas tardes coloridas com a sua doce presença, é só alvorada, sem você virá o ocaso permanente com todas as implicações do desconhecido que a noite traz consigo.

Falar de amor é como falar de dinheiro, retórica recorrente e inócua, sem solução. Entretanto o amor traz em si uma diferença, ele pode ser expresso, é arte, é música, é dança, é loucura, é invenção e no fim tudo se transforma a ponto de se procurar o ponto da razão de tudo e perceber que é igual ao arco-íris, não se encontra porque não existe.

Yo conosco unas quantas referencias de que la pasión es una práctica independiente iluminada por las llamas vacilantes de las manos de los ángeles. Por eso puedo afirmarte que si vos queres o no lo inmortalizaré para siempre in mí corazon. Y, sin embargo, de vos yo no recibo ni un poco de aprecio, sino que, como a una niña pequeña, me engañas con tuyas estórias, pero no seré yo quien le haga reproches. Ayer yo tuvo un sueño, un sueño con vos, mí ángel.

Em geral esqueço os meus sonhos mas oh maldita memória, perturbadora de meu juízo, não sei com qual direito interfere todas as noites nos meus ensaios da morte para repetir o sonho daquela noite. Você estava aqui inteirinho como se não houvesse nada além dos limites das paredes da casa. Eu te via como te vejo acordada com essa boca rasgadinha que, sem a menor sombra de dúvida, nesse mundo se há igual, eu ainda não vi. Ah, alegria e presente de Deus dentro de uma caixa feita com o mais valioso papíro amarradinho com uma fita de ouro e com uma flor de lótus no acabamento? Será você?

Presentes lindos, esses não posso te dar então, com licença Dele, te darei. para você, e só para você, os meus sentidos. Meus olhos chorarão por você, meus ouvidos substituirão os seus naquilo que te ofender, meu paladar será usado para o amargo, meu olfato interferirá no seu quando o vento lhe trouxer algo que te importune, quanto ao meu tato, você o use no que for cortante. Os seus sentidos serão apenas para ver o belo, para ouvir a música, para se deleitar com os néctares, para sentir os perfumes mais raros, e as suas mãos, use-as no que te fizer feliz.

Naquela noite idílica, a do sonho, quando você me abraçava eu conhecí o Nirvana, sabe qual é o significado disto?. Quando percebi que poderia despertar bruscamente tive a certeza de que aquele era o momento da passagem. Antes porém eu te dei todo o sangue que em mim não faria mais sentido, eu te dei todo o meu corpo para que você aproveitasse o meu tempo para prolongar o seu.

Como te contei, ao dia seguinte, você andando pela rua viu uma pedra e duas datas. Você parou e seu coração revigorado pelo meu ficou muito feliz porque alí estava a matéria de um espírito que teve por você um amor verdadeiro . Mas eu te retribui à altura, meu presente maior para você foi a liberdade.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

O MAIOR INVENTO DA HUMANIDADE








A maior invenção do homem é a sacola. A sacola é a síntese da vida, ali vai de tudo um pouco. Há dias, que saio de casa com um monte de coisas incompatíveis, porém, sabiamente, do meu ponto de vista, acopladas dentro de uma coisa a qual foi convencionado dar o nome de sacola. Quem será o iluminado que teve a genialidade de inventar uma coisa que supera, e em muito, a qualquer outro invento? E olhem que a coisa já vem lá da Antiguidade. Toda vez que enfio itens díspares dentro de uma sacola gosto de me torturar pensando, e se ela não existisse? Eu certamente morreria.

Se está ameaçando chuva, preciso carregar uma sombrinha, tenho que levar um bolo para minha mãe, minha amiga me pediu dois livros emprestados, tenho que levar o ferro elétrico para consertar, preciso levar um par de sapatos rotos para dar-lhes uma sobrevida, vou devolver uma xícara de açúcar que tomei emprestado, prometi fazer uma doação para a campanha do Kilo, imaginem como poderia transportar tudo isso de uma única vez na ausência de uma  ou duas sacolas? Foi daí que comecei a prestar atenção nas coisas que usamos no cotidiano e as tratamos como se elas tivessem aparecido no mundo como por encanto. No entanto, elas são geniais e demandaram a imaginação e a dedicação de um nobre e não consagrado criador : um anônimo. A sacola é uma dessas invenções, deu até origem a uma das mais dignas profissões, a sacolagem e daí as sacoleiras, invejável atividade comercial. A sacola é a celebração máxima da vida literalmente carregada. Quem a inventou tem o meu reconhecimento póstumo.

Obsessiva por tão “retardatária” percepção passei a dar um tratamento vip, diferenciado, meigo, humano e solidário às sacolas. Olho para elas com amor sincero e eterno. Sou escrava dessas “enfia tudo em mim”. Há de todos os tipos e para todos os gostos. Algumas são intrépidas e arrebentam na hora H. Nós, ingratos, as desqualificamos e as chamamos de ordinárias. Mas, é coisa do momento, o arrependimento é imediato quando vem a prima socolilda substituir a “de segunda classe”. Elas são imprescindíveis em todas as situações. Fazem parte da família, do comércio, da vida dos catadores de papel, do sexo seguro (as camisinhas são sacolinhas ajustáveis nos ínfimos e nos desmesurados) do “welfare state”, elas são simplesmente a seiva da vida armazenada. Sacolas, minhas queridas, eu as amo. Vocês são a essência da minha vida, vocês são o símbolo da discrição dos homens, vocês são amigas fidelíssimas, dentro de vocês está amontoado um arsenal de segredos. No entanto, ninguém lhes dá o amor do qual são merecedoras. Doravante, vocês têm em mim a maior admiradora, defendê-las-ei até que a morte nos separe, isso se não for vítima de um esquartejamento e meus restos mortais  serem transportados dentro de vocês. Unidas na eternidade.

Viagens, ninguém nesse mundo se desloca de um lugar para outro sem levar uma sacola, óbvio que a coisa se desdobrou e virou mala, maleta, valise, não importa, todas são derivadas da nobre e para sempre nossa, “sacola”. O caos estaria formado se ao fazer o “check in” em um aeroporto tivéssemos que colocar todos o itens, um a um, na esteira, e ficássemos sujeitos aos olhares curiosos dos outros passageiros, logo, a sacola e suas variáveis nada mais são que caixinhas de segredos ou vergonhas. São elas que nos resguardam do que não somos e aparentamos ser, são elas que não deixam que a humanidade saiba que nem sempre a nossa roupa de baixo é condizente com a de cima, que as meias, no mais das vezes, estão gastas e têm os elásticos relaxados, que as nossas escovas de dentes são arreganhadas, que nossas camisolas e pijamas são trapos e nós as assombrações noturnas (causa do insucesso de muitos casamentos).

Elas são sempre solidárias com as faltas de educação nas festas, quando as enchemos dos restos festa justificada pela idéia de que fizemos um vantajão, são elas que nos protegem contra os julgadores que gostam de saber que livro compramos ou que video alugamos nas locadoras, são elas também que não deixam o vizinho perceber que quando descemos elegantemente pelo elevador, estamos com um potinho lacrado para levar ao laboratório para descobrir o tipo de vermes que damos guarida. Para tal ocasião usamos uma sacolinha dourada dos chocolates Godiva. São essas grandes amigas que nos economizam o tempo, levando de uma paulada só um montão de coisas, que de outra feita teriam que ser carregadas atabalhoadamente mundo afora.

Para que as sacolas sejam reconhecidas oficialmente como a peça número um da vida, pensemos em fazer uma compra no supermercado prescindindo dessa genial invenção. Bolsas não existem, é claro que elas não passam de sacolas sofisticadas. Então você leva nas mãos a lista das compras, a carteira, o cheque, seus documentos pessoais e, no caso das mulheres, um batom e um pente. Depois da compra feita começaria o inferno.

O saco de arroz, feijão, açúcar, sal, trigo e sabão em pó, iriam empilhadinhos em um dos braços. Debaixo do outro braço, os detergentes, limpa vidros, ceras para brilhar onde pisamos, (obsessão); entre os dedos de uma mão iriam os frios fatiados, já os sabonetes, desodorantes, pastas de dente e fio dental caberiam dentro do sutiã, que não passa de uma sacola de valor inestimável para nós, as mulheres, que lutamos contra a queda livre da sobreloja. Os frangos e as carnes, naturalmente, embrulhados, iriam amarrados na cintura, os rolos de papel higiênico estrategicamente enfiados no cabo de uma vassoura comprada para esse fim, essa, aliás, enfiadinha no canto do sovaco. Amarrados sobre os pés jazeriam duas latas de óleo, nas pernas os biscoitos, nas costas poderíamos prender com muito jeito os congelados (pneumonia certa), sobre os ombros estar a manteiga de um lado, e o vidro de requeijão de outro.

 Na cabeça, com jeitinho, daria pra equilibrar sobre uma peneira as frutas e os legumes. No pescoço? Ah este seria perfeito para pendurar os apetrechos da feijoada. O bacalhau amarrado na presilha da calça (lugar pouco estratégico, mas útil). A outra mão estaria livre para cumprimentar algum amigo que porventura estivesse no mesmo ponto de espera do ônibus. Ah, me esqueci, não tendo lugar para levar o cheiro-verde, pendurá-los-ia nas orelhas, e o jornal, encomendado pelo marido leitor entre os dentes, à maneira das mordaças.

Meu reino por uma, só uma sacola. Não há vida possível sem elas.

SUGESTÃO: as sacolas merecem um busto na Praça dos Poderes em Brasília, com uma bandeira do Brasil hasteada ao lado, ainda que seja a meio pau. Um dia do ano será feriado em homenagem à augusta sacola e nesse dia, os Dragões da Independência, unidade mais elegante do Exército Brasileiro, lhes renderá homenagem com a tropa perfilada cantando o Hino Nacional.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

YASMIM, A MOÇA DO NOME PERFUMADO VINGANÇA IV



Jovem, muito jovem, tímida no falar e no sorrir, Yasmim, a menina de nome perfumado, era a graça celestial da pequena cidade litorânea conhecida como Mirada da Sereia. Esse exótico nome atraía levas de turistas, fervorosos bandeirantes a procura do paraíso terreal. Yasmim, a menina de nome perfumado, trabalhava em uma pequena tenda à beira mar, onde seu pai vendia bebidas e peixes para os estrangeiros. Yasmim era a escrava do prazer dos banhistas, em época de temporada os dias corriam sob seus pés. Yasmim respirava porque esse ato não tomava tempo, no mais era só trabalho, trabalho sem recompensa ou reconhecimento.

Quando a menina com nome de flor completou 13 anos, foi covardemente violentada pelo cunhado, o noivo de sua irmã Mirtes. Seu Matias era um homem rude, já adentrado nos cinquenta anos, solteiro convicto, avesso a qualquer compromisso que colocasse em risco à integridade de suas propriedades. O famigerado Matias era o homem rico da cidade. Um dia ele resolveu se casar, precisava de uma dama de honra na virada da vida. Mirtes, a feiosa irmã de Yasmim, foi a eleita pelo vestuto homem, para ser sua esposa abençoada pela Santa Madre Igreja Católica, Apostólica e Romana. Mirtes seria a princesa consorte do pequeno reino do anormal Matias, essa glória levaria para o túmulo. Glória inglória e nefasta.

Ameaçar a realização dessa abençoada união era uma idéia que Yasmim não tinha quando contou aterrorizada à mãe o sucedido. Dona Madalena, mulher de parcos recursos mentais, tomada pelo temor que as coisas desandassem para a família, caso o casamento não acontecesse, excomungou Yasmim. Deu lhe uma bofetada na cara, acusou-
a de menininha sem-vergonha, invejosa da sorte da irmã e provocadora de homens. Logo depois foi a vez do pai, espancou a menina sem piedade e jurou-lhe de morte se revelasse a alguém sua fraqueza tentando, como o diabo, o pacato sr. Matias, "seu honrado futuro genro". Assim, na feliz idade de 13 anos, Yasmim foi apresentada a uma das várias facetas do mundo real que até então desconhecia: as famílias guardam segredos, os mais hediondos e miseráveis, pelo bem de todos. Vivendo e aprendendo. Yasmim aprendeu e silenciou-se. Aqui residia o perigo.

Depois de saciar seu lado animal, o famigerado noivo foi até à delegacia e contou a Jeferson, o delegado, as travessuras de Yasmim e a impossibilidade de se ver livre do assédio da pequena demônia. Informação melhor não poderia obter o amaldiçoado delegado que exercia o poder na cidade através das mais inimagináveis arbitrariedades e covardias. Jeferson era temido e odiado pela população de Mirada da Sereia. Depois de longa conversa com o proprietário da cidade, revoltado com o impropério que acabava de tomar conhecimento, prometeu-lhe proteção da fúria da menina de nome perfumado e corpo tomado por satanás. Essa mesma atitude teve Dom Mariano, o santo padre que por motivos inexplicados já tinha passado por onze paróquias desde que recebeu os votos sagrados. Yasmim tinha que ser exorcizada e ele seria o exorcista.

Depois daquele dia que melhor seria não ter vivido, Yasmim, viveria seu pequeno Vietnã. Seu pai, o Murilão do Peixe, como era conhecido na redondeza, mudou o comportamento com a menina de nome perfumado. Olhava para ela com ares de luxúria e nunca deixava de fazer um comentário obsceno quando estava a sós com a filha. Passava-lhe a mão no rosto de maneira tal que Yasmim arrepiava como um ouriço tamanho o pavor pelo odiado progenitor. O delegado furtando-se às obrigações de fazer cumprir a lei e proteger a menor, sorria com sua dentuça amarelada para Yasmim que não entendia a simpatia súbita. Dom Mariano, o psicopata de batina, só faltou usar um fórceps para arrancar de Yasmim no confessionário os detalhes do dia do sinistro. Yasmim nada falava, ela era inocente, não era a autora do pecado. E o último personagem que surgiu para infernizar a vida da menina ultrajada e indefesa foi Leopoldo, seu único irmão. Este potencializou o desejo latente que tinha por sua irmã caçula em forma de passadas de mão desavisadas e encostadas lascivas no corpo frágil de Yasmim.

O tempo passou e Yasmim tornou-se mulher. Desde o dia do acontecido, as insinuações e perversões daqueles homens tornaram-se um ataque direto e implacável. Se no princípio Yasmim menina, a do nome perfumado, resistiu lutando bravamente contra os selvagens, Yasmim moça, cedeu. Alternava entre os cinco amantes, o provecto sr. Matias, o temido delegado Jeferson, o padre Mariano PP (pecado e perdão), o lesado Murilão Peixe e o mentecápito Leopoldo. Ela sabia como agradá-los, com o riso mais insinuante e o andar de ninfeta na primavera, Yasmim os levava ao delírio, para cada um tinha um artifício, um jogo de pélvis particular. Em pouco tempo a vítima foi se transformando em algoz, Yasmim os subjugou, um a um, seu perfume exalava a cada vez que seu nome era pronunciado. Ela lhes inspirava um fanatismo religioso, impossível de ser superado. Yasmim era o néctar do abominável quinteto. Eles, os brutos, a amavam. Há diferentes formas de amor,inequivocamente.

Um belo dia, chegou em Mirada da Sereia um fotógrafo suiço. O homem era um pedaço de Jesus Cristo, alto, olhos cor de mel e do próprio cabelo, sorriso discreto, sedutor, voz mansa e baixa, corpo na exata medida do pecado. Era a encarnação do conceito de beleza universal, sem lugar para polêmicas. Ao conhecer Yasmim, a filha do dono da barraca de peixes, por ela se encantou irreversivelmente. Esqueceu se dos pais, das glamourosas esquiadas nos Alpes no mês de fevereiro e da pátria. Yasmim, só Yasmim, a moça do nome perfumado, existia para ele. Ali, na areia, à luz do céu e com o aval do Pai, começou o mais louco idílio amoroso já vivido na pequena cidade e num raio de mil quilometros de todos os pontos cardeais. O estrangeiro amou Yasmim como só se ama uma vez na vida. Ensinou à moça do nome perfumado o mundo e a manejar a complicada máquina fotográfica. Yasmim aprendeu tudo, o mundo e a complicada máquina fotográfica.

Com a máquina à mão Yasmim passou a tirar fotos, fotos eróticas para delírio de seus amantes. Eles se submetiam aos sortilégios da menina e também aos seus caprichos e fantasias sexuais. Eram muitas as fantasias de Yasmim, fantasias de uma mente tomada pelo ódio de quem finalmente conheceu o amor. Yasmim amava o estrangeiro.

Às vésperas do carnaval a pacata cidade Mirada da Sereia amanheceu surpreendida por um grande outdoor na praça, bem defronte à Matriz de Nossa Senhora dos Milagres. Ali estava anunciada a grande surpresa para a festa momesca, um novo bloco sairía no desfile programado para o domingo à noite. Mas o bloco tinha urgência, saiu no domingo de manhã em forma de grandes estandartes cuidadosamente colocados em pontos estratégicos da cidade. Com o conluio do estrangeiro, já sabedor das barbaridades que vinha sofrendo há anos a moça de nome perfumado, organizou as fotos à perfeição e a homenagem foi feita.

No adro da igreja estava o presente "para as beatas da cidade". Dom Mariano, com a batina aberta exibia um diminuto orgão rezador em posição de resignação. Trazia preso no alto da cabeça uma fruteira à la Carmem Miranda, as mãos postas, os olhos se entreolhando com a mesma rigidez que escutava os pecados horríveis do moradores da cidade. Nos pés calçava uma meia curta branca e um sapatinho 'boneca' preto.

Em frente à delagacia a homenagem foi rendida aos "homens covardes da cidade". O delegado Jeferson vestido de coelhinha da Play Boy na cor rosé, os joelhos ligeiramente flexionados cobertos pelas mãos cabeludas com as unhas pintadas de vermelho. A boca adentrada na cavidade oral, sua dentadura? Sabe Deus onde estava na hora de tão emocionante festinha. Nos pés calçava uma meia curta branca e um sapatinho 'boneca' preto.

Na esquina da casa de Seu Matias, "Mirtes, a feiosa" recebeu seu presente de carnaval. O poderoso proprietário da cidade aparecia de perfil vestidinho de mulher grávida, com uns 7 ou 8 meses. A cabeça virada para trás olhando com um certo sorriso as nádegas rendidas e em pêlo, o vestido não tinha costas. Nos pés calçava uma meia curta branca e um sapatinho 'boneca' preto.

Na porta da casa de Dona Madalena, "a mamãezinha do coração" apareciam abraçados em um grande outdoor os dois machões da família, Murilão do Peixe e Leopoldo, ambos nus olhando lascivamente para o sexo do outro. Nos pés calçavam uma meia curta branca e um sapatinho 'boneca' preto.

E para o deleite da cidade os 3 estandartes e o grande outdoor apareciam juntos em frente à prefeitura. Uma faixa negra enorme os envolvia com os dizeres: "Yasmim deseja um alegre carnaval aos amorais habitantes da maldita cidade de Mirada das Sereias com o lançamento do Bloco dos Sapatinhos Pretos"

Ninguém nunca mais pôs os olhos em Yasmim, os festejos do carnaval foram suspendidos e Mirada da Sereia entristeceu, seus segredos foram revelados.

A vingança pode ser feita com um simples clic, o clic detonador.